L 1 Jr 17, 5-10; Sl 1, 1-2. 3. 4 e 6 Ev Lc 16, 19-31
No Evangelho de hoje há um homem que é definido pelo que tem e há outro que é chamado pelo que é: Lázaro, que quer dizer “Deus socorre”. O homem rico é um “desnomeado” e o homem pobre é vocacionado. Este homem da parábola de hoje poderia certamente ligar-se à versão jovem daquele que se aproxima de Jesus para o interrogar sobre o que seria possível para alcançar a vida eterna e que sai pesaroso daquele encontro por saber que tinha de vender os seus bens e dar o seu dinheiro aos pobres para seguir Jesus (cf. Mt 19,16-22).
Hoje, a Palavra de Jesus ajudam-nos a acreditar na Bem-aventurança dos pobres que herdarão o Reino de Deus. Mas para isso precisamos de ter o coração aberto para acolher a vida como dom, que somos chamados a “administrar” em favor dos outros. O homem que tem consciência de que é chamado pelo próprio nome, como Lázaro, está aberto às grandezas da justiça de Deus, enquanto que o rico, que não escuta senão as vozes ilusórias do bem-estar material, não escuta Deus e exclui os outros da suas contas correntes ou dos seus bens.
Por vezes fico a pensar nos cofres ou contas-correntes das comunidades cristãs, perguntando-me:
■ Será que ali se encontram porções ou parcelas não rentáveis para o fisco, mas rentáveis para o “banco” do Céu?
■ Sem deixar de promover uma bela celebração do culto, este costuma ter como benefício colateral a contribuição para a causa dos pobres?
Como se pode observar no calendário da Igreja, não faltam à volta da Liturgia iniciativas periódicas, como é o caso dos destinos da renúncia quaresmal, e ofertórios dedicados a objetivos concretos, que são resposta à celebração da fé. Com a ajuda dos homens e mulheres de boa vontade.
É curioso que a vida eterna, na parábola de Jesus, é um estar “ao lado de Abraão”, “pai” de uma descendência numerosa. O cumprimento da promessa que Deus fez a Abraão, por ter ido oferecer o seu filho a Deus sem reservas, não haveria de ter um maior significado, não só no número, mas também na qualidade ou profundidade, na oferta que o próprio Deus fez de seu Filho Unigénito à humanidade? Ou seja, este ofertório de Cristo haveria de ter uma consequência “menos” universal, uma vez que é consequência do amor infinito de Deus Pai? Assim como a fé no verdadeiro e único Deus fez Abraão ser herdeiro de uma numerosa descendência, também o fermento cristão é semente de uma fraternidade universal.
O Papa Francisco, embora não se tenha referido a Abraão da sua encíclica “Fratelli tutti”, escrita em 2020, “sobre a fraternidade e a amizade social”, não deixou de associar a estas palavras um gesto significativo, que foi a sua viagem apostólica ao Iraque em 2021. Se no “seio de Abraão” o Santo Padre foi à procura das “origens, onde tudo começou”, no “desafio de Jerusalém” ele encontrou o horizonte para onde todos os crentes são chamados a ser irmãos e construtores de pontes, e não mais inimigos e fazedores de guerras.
Voltemos à parábola de hoje: o rico não é condenado pela sua riqueza, mas por não ter sabido gerir a sua vida como um dom recebido a ser doado. Se a sua vida terminou num fracasso não foi porque Deus o condenou, mas foi ele próprio que não quis viver a sua vida segundo o mistério do Amor. Já o pobre entregou a sua vida nas mãos de Deus, aberto a Deus.
Ao fim e ao cabo, a morte de cada ser humano revelará a forma como tiver vivido e o horizonte para o qual tiver atirado os seus esforços e sonhos.
COMO FILHOS DE ABRAÃO, UNIDOS A TODOS OS CRENTES E PESSOAS DE BOA VONTADE E IRMÃS, CUIDEMOS JUNTOS DA NOSSA CASA COMUM
