L 1 Dn 9, 4b-10; Sl 78 (79), 8. 9. 11. 13 Ev Lc 6, 36-38
Reflexão inspirada, em parte, em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.
Na primeira leitura, tirada da profecia de Daniel, temos uma grande liturgia penitencial. Nela temos os elementos essenciais a imitar para que o nosso caminho penitencial seja proveitoso: 1º ─ o reconhecimento de que Deus é grande e misericordioso; 2º ─ o reconhecimento diante de Deus da situação de pecadores; 3º ─ a oração humilde e confiante de quem pede o perdão. Só por esta via é que podemos sair dos nossos cativeiros, como Daniel do cativeiro da Babilónia.
Neste sentido, a penitência não tem necessariamente de ser uma experiência triste, precisamente porque com ela se quer denunciar o pecado que nos escraviza e anunciar o perdão que nos liberta. Esta experiência bem acontecida só poderá resultar em alegria, que é prefiguração da alegria pascal.
Quem se deixa cuidar através deste caminho quaresmal, sobrenaturalmente vai-se vendo a fazer parte de uma cadeia de misericórdia: de Deus ao pecador, do pecador perdoado ao seu irmão pecador, e assim sucessivamente. E os elos a que Jesus se refere ─ ser misericordiosos, não julgar, não condenar, perdoar, dar ─ são um desdobramento das motivações, sentimentos, atitudes e comportamentos que Jesus contempla e vive a partir do Pai e com os quais educa os seus discípulos, através do exemplo e sugerindo uma reciprocidade sem medida.
Nesta reciprocidade, como se depreende dos versículos anteriores aos que hoje são proclamados, entram todas as pessoas, a começar pelos inimigos, prova de força para conseguirmos superar qualquer condenação dos outros. Tratar os outros como queremos que eles nos tratem é a melhor forma de quebrar as cadeias do mal e fazer surgir cadeias com elos novos: a cadeia do perdão, para que a Páscoa seja uma passagem de mãos dadas, na ponte formada pela reciprocidade do amor misericordioso.
Com o ensinamento de hoje, Jesus revela-nos o verdadeiro sentido de Deus e da vida dos homens. O judaísmo tinha uma norma de justiça segundo a qual cada um havia de ser tratado de acordo com as sua obras. No marxismo, é necessária a dialética da revolução na qual se inclui a necessidade de superar (ou destruir) o inimigo para alcançar a harmonia final. Nas diversas políticas do mundo, sacrifica-se o interesse dos grupos minoritários aos pobres. Talvez a mais profunda tendência dos homens seja o egoísmo, o facto de amar os outros apenas na medida em que representam um valor para a minha vida. Contrariamente, o Evangelho de Jesus oferece-nos uma perspetiva arrepiante: “Amai os vossos inimigos”. A lei judaica não é absoluta, nem a revolução marxista promete o êxito, nem o interesse de grupos políticos promete soluções duradouras. Só é absoluta a urgência de semear o bem, amar sem procurar resposta, dar sem esperar recompensa, pagar com o bem os males recebidos.
É tão estranhamente distinta esta forma de entender o amor, que os primeiros cristãos introduziram na linguagem grega uma palavra nova para o exprimir: “Ágape”. Mas cuidado! Esta palavra não deve ser entendida no sentido grego, de aspirar à plenitude pessoal, mas no sacrifício de dar a vida pelos outros. O Deus dos gregos não ama, limitando-se a ser meta pela a qual aspiram os impulsos dos homens. O Pai de Jesus ama os homens a tal ponto que lhe entrega a sua própria intimidade (o Seu Filho) na tentativa de os salvar. Por isso, a forma de amar que o Senhor nos ensina é o sentido e o centro da vida cristã. Tudo o que não parte deste centro, pode gerar uma contrafação do verdadeiro amor que é amar sem medida. Viver a realidade do amor como Jesus no-lo apresenta significa a única verdadeira revolução da nossa história.
