L 1 Jn 3, 1-10; Sl 50 (51), 3-4. 12-13. 18-19 Ev Lc 11, 29-32
Ontem refletimos que a escola de oração que Jesus formou com os seus discípulos é a escola da confiança em Deus misericordioso, para Quem vale mais ver os filhos juntos ainda que imperfeitos no caminho da perfetibilidade, do que desalinhados numa perfeição aparente que não leva ao seu Reino glorioso. Para isso, a oração deverá ser um modo de nos relacionarmos com Ele, onde não contam tanto a quantidade de palavras, mas mais a qualidade ou autenticidade da relação. Deste modo, esta escola de oração é, também, escola do arrependimento que nos aproxima mais de Deus e escola do perdão que nos aproxima mais dos irmãos. Assim, a confiança em Deus misericordioso que posso ganhar na oração (relação) diante d’Ele é ─ através do caminho do arrependimento ─ a mesma possibilidade de eu me tornar confiável pelos irmãos que precisam de ser misericordiados por mim.
A resposta rápida dos ninivitas a Jonas é, ao mesmo tempo, um ato de fé deles em Deus misericordioso, através do modo que Jonas aprendeu de estar em obediência e resposta a Deus, que o chamou em primeiramente à conversão. Portanto, estava diante dos ninivitas um exemplo de resposta não só à vocação, mas também e sobretudo à conversão. Por isso, os cristãos veem em Jonas a prefiguração de Jesus Cristo, enviado à humanidade a anunciar o perdão de Deus misericordioso e a convidar os homens ao arrependimento.
Que sinal é este de “quem é maior” que Salomão e que Jonas? Hoje responderia deste modo:
Quer Salomão, quer Jonas são transmissões de uma sabedoria e de uma misericórdia que não são deles, ou melhor, que não são eles. Vir de longe para ouvir Salomão e fazer penitência por ouvir Jonas só foi possível porque estava neles a sabedoria e a misericórdia que é Deus ou que Deus tinha manifestado nas suas vidas. Eles somente são testemunhos de Deus, porque estão num caminho de transformação. Assim, a sabedoria e a misericórdia de Deus não são meros atributos de Deus, como se a nossa ignorância e o nosso pecado estivessem no princípio da sabedoria e da misericórdia de Deus. Não! Deus não tem sabedoria: é sabedoria; Deus não tem misericórdia: é misericórdia. É este ser que em Deus é princípio de vida e de redenção. Quando nos criou Deus já era misericórdia! Quando nos redimiu em Jesus Cristo, Deus já era misericórdia!
Dissecamos demasiado entre o que Deus é e o que Deus faz, porque tendencialmente temos separado demasiadamente o mistério da Criação e o mistério da Redenção. Amedeo Cencini ajuda-nos a refletir que a Misericórdia é o amor que vai mais além da justiça, do mérito (cf. João Paulo II, Dives in misericordiae). Quem pode dizer que foi criado porque mereceu? É claro que fomos criados desde um ato de misericórdia. A misericórdia é o que está na origem da vida, do mundo, da nossa existência. Fomos pensados por uma mente misericordiosa, fomos feitos por mãos misericordiosas, fomos projetados segundo um projeto de misericórdia. Fomos amados desde o início por um coração misericordioso. A misericórdia é o primeiro elemento que nos constitui na nossa natureza. Nós feitos de misericórdia, somos “empastados” de misericórdia. Mesmo se, por vezes, a realidade dos factos ou o que pensamos dentre de nós nem sempre confirme exatamente isso. Mas é bom colocarmos a misericórdia nas origens do ser, da nossa vida, do que somos chamados a ser. Assim, o tema da misericórdia não se refere somente a um aspeto da nossa vida ─ o penitencial/moral ─ mas toca o nosso modo de pensar Deus e nós mesmos, e o nosso relacionamento com Ele. Este é mais um motivo para observarmos como, de facto, na nossa vida podemos aceder à experiência verdadeira do perdão e da misericórdia divina, para depois sermos abundantemente misericordiosos com os nossos irmãos. Trata-se de ver e constatar a estreitíssima correlação entre a misericórdia que nos criou e aquela que nos remiu, entra aquela que se coloca nos inícios da nossa vida e aquela que se completa ao longo dos dias da nossa existência. É claro, de facto, que se a misericórdia se coloca nos inícios da nossa vida, que inclusivamente a provoca, por outro lado é a experiência do mal que nos abre ao abraço divino.
Aqueles que pediam um sinal a Jesus pediam algo exterior a Ele, como se a Sua presença da parte de Deus não bastasse e os seus merecimentos fossem correspondentes à Sua ação divina (no fundo, quer-se igualar a Deus). Ao invés, os penitentes de Nínive não demoraram, ao perceberem a origem da pregação de Jonas, a revestir-se de sinais exteriores que manifestassem a sua transformação interior em resposta ao Deus que sabem ser maior que eles. Assim deve ser, para nós, a experiência da ascese quaresmal: não pedir sinais a Deus, com o risco de apostarmos numa conversão que tenha por base o nosso merecimento; mas, pelo contrário, manifestar sinais de que estamos a escutar Deus e a responder humildemente ao seu chamamento para uma vida nova.
Uma das cartas de São Pedro Damião que está presente no ofício de leitura da sua memória litúrgica, deixa-nos entrever a consolação que está prometida no regresso ao abraço de Deus que, inclusivamente, tem de passar pela provação, permanecendo na justiça e no temor. Com o crente acontece como com o ouro: o martelo serve para extrair a escória e a lima para lhe dar o brilho que o faz manifestar a glória de Deus. Porque o trabalho mais difícil é todo d’Ele! O cristão não quer os louros, mas basta-lhe o testemunho da serenidade no teu rosto, a alegria no teu coração, a ação de graças na tua boca. São certamente dignos de todo o louvor os desígnios de Deus, que atinge nesta vida os seus para os poupar aos flagelos eternos; abate para elevar, fere para curar, humilha para exaltar. Portanto… robustece o teu espírito na paciência com estes e outros testemunhos das Escrituras divinas, e espera confiadamente a alegria que vem depois da tristeza.
A tristeza é fruto da luta entre poderes; a alegria é fruto do caminharmos juntos sob o poder sábio e misericordioso de Deus, certos de que podemos responder com o nosso arrependimento a um abraço misericordioso que para sempre nos está estendido.
