navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Is 55, 10-11; Sl 33 (34), 4-5. 6-7. 16-17. 18-19 Ev Mt 6, 7-15
Na Memória dos Santos Francisco e Jacinta Marto
Reflexão inspirada em Cuando recéis, no uséis muchas palabras.

Segundo Jesus Cristo, para se ser justo aos olhos de Deus através da prática das obras de misericórdia é preciso ser-se poupado nas palavras. Jesus di-lo claramente e sem recurso a metáforas: é uma caraterística do paganismo dizer-se muitas palavras de forma interesseira diante de Deus. O que, obviamente, não realiza o encontro da oração, nem leva a empenhar nos seus desafios e a alcançar os seus frutos. Embora esta lição de Jesus entre em contradição com o Seu mandato de orar sem cessar e com insistência, talvez aqui nos queira ensinar o modo mais adequado de estar diante de Deus no confronto com os outros.

Neste sentido, a oração não é um “fazer”, mas mais um “estar com”. E neste “estar com” é Deus que toma a iniciativa (alguém pode obrigar Deus a estar de forma interesseira?). A nossa primeiríssima forma de abordar Deus deverá, por isso, ser a do silêncio reverencial. Antes de ensinar o que é a oração, Jesus faz esta admonição para advertir os seus discípulos sobre o que a oração não é, ou seja, sobre o que implanta uma não relação com o Pai e os outros. Porque Jesus veio para unir, não para partidarizar.

Quanto às palavras que devem ser ditas, é Jesus a ensinar-nos as essenciais, que devem ser pronunciadas pelos lábios e com o coração. Já caímos na conta de que o Pai Nosso expressa os desejos de Deus? E que estes desejos, no fundo, são também os nossos? Declaramo-l’O Nosso ─ quer dizer, de Todos ─ reconhecêmo-l’O Santo, acolhemos o seu Reino, respeitamos a sua Vontade como omnipotente e omnipresente; suplicamos por pão quotidiano, perdão fraterno e proteção contra o mal. Estas palavras de Jesus explicitam o que Deus Trino é, o que Ele quer para nós, sabendo do que nós essencialmente necessitamos: ver satisfeitas as necessidades básicas, viver em paz e harmonia com todos os que nos rodeiam, libertar-nos dos perigos. Jesus conhece bem a Deus e conhece-nos bem a nós todos. «Porque um só é Deus e um só é também o mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo» (1 Tm 2,15).

No final deste ensinamento de Jesus sobre a oração, fica uma advertência, como que a dizer-nos que os frutos da oração não virão de forma individualista: é precisa a fraternidade construída na base do perdão, para que o que Deus tem para nos dar a todos se perceba e receba como herança de um Pai para todos os seus filhos. Se rezamos a Deus com o preconceito de que uns são “filhos” e outros “enteados”, estamos no caminho errado ou numa outra escola rabínica veterotestamentária rígida qualquer. Jesus põe-nos na mão “a faca e o queijo” quanto ao desafio do perdão como forma de estar diante de Deus e dos irmãos. A verdadeira oração une a piedade e a justiça no mesmo caminho, no mesmo viver. A oração reata a relação com Deus, na medida em que o perdão dado e recebido reatar a relação com os irmãos. Deus quer ser tudo em todos!

No dia de hoje há duas efemérides que nos ajudam a concretizar a teologia aprendida:

1) A Memória dos Santos Francisco e Jacinta Marto ajudam-nos a perceber o papel de Nossa Senhora ─ que podemos todos chamar de “Mãe Nossa” ─ na escola da fé e da oração, quer dizer, na escolha que ensina a acreditar e a relacionarmo-nos devidamente com Deus e com os irmãos. De facto, segundo o que contemplamos nos relatos destes dois pequeninos pastorinhos, as suas palavras foram poucas e os destinatários das suas orações foram muitos, assim como numerosos foram os frutos que lhes obtiveram da parte de Deus, para esta vida e para a salvação. Portanto, nunca dispensemos Maria da nossa aprendizagem de discípulos-missionários de seu Filho.

2) Hoje comemora-se, também, o Dia Mundial da Justiça Social. Criado em 2007 pela Assembleia Geral das Nações Unidas e celebrado pela primeira vez em 2009, tem como objetivo enfrentar as realidades da pobreza, do desemprego e da exclusão, tentando criar oportunidades para todos e combater as desigualdades no mundo. Igualdade, bem-estar, trabalho e justiça para todos são algumas das preocupações desta data, numa altura em que se levantam questões sensíveis como as da migração e dos refugiados. Diariamente são colocadas barreiras às pessoas pelo seu género, raça, etnia, idade, religião ou deficiência. O próprio sítio onde a pessoa nasce acaba por condicionar a sua liberdade e bem-estar. Cerca de 20% da população mundial consume 80% dos recursos do planeta, enquanto menos de 100 famílias detêm mais de metade da riqueza mundial. Nesta data a ONU faz um apelo às nações para a eliminação de barreiras sociais e realizam-se diferentes iniciativas pelo mundo para promover a justiça e a igualdade social, como encontros, colóquios, exibições de filmes, campanhas, etc.