navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Lv 19, 1-2. 11-18; Sl 18 B (19), 8. 9. 10. 15 Ev Mt 25, 31-46

Hoje leio a Palavra de Deus impulsionado pela leitura do artigo O destino macabro dos cadáveres com batimentos cardíacos, que nos fala da surpreendente possibilidade de haver pessoas que estejam cerebralmente mortas, apesar de seu ritmo cardíaco continuar a manter vivos os órgãos internos do corpo, assim como dos avanços da medicina quanto a estetoscópio e ao desfibrilador, tecnologias que, respetivamente, podem levar a certificar com mais precisão a morte de uma pessoa ou, a partir de uma certa tensão elétrica, trazê-las de volta à vida. De facto, é impressionante verificar como, apesar do papel de “quartel-general” dado ao nosso cérebro, o papel da efusão da vida estar dedicado ao coração. Parece que o nosso Criador deixou na base do nosso cérebro “reptiliano” um “tronco encefálico” que controla as funções críticas do corpo, independentes das nossas funções intelectuais. E parece o processo de batimentos cardíacos começa na quarta semana da gestação quando o coração começa a contrair-se.

E se assim é para o corpo, ao mesmo tempo, parece-me que o nosso Deus Santo nos deixou ficar um esquema semelhante para a alma, que podemos refletir com a mesma imagem das funções do coração:

1) Os “batimentos cardíacos” seriam aqueles “refrões” que se vão repetindo na leitura do Livro do Levítico: “Eu sou o Senhor”. E conforme o ciclo cardíaco começa no início de um batimento cardíaco e termina no início de outro, assim a fé no Senhor que é Santo permite-nos levar-lhe assumidamente também as nossas más ações, para que Ele purifique o nosso coração, de forma a que os seus batimentos possam ritmar a nossa vida com novas e boas ações.

2) A “fase diastólica” (diástole ─ na qual as câmaras do coração estão em estado de relaxamento e se enchem de sangue venoso que recebem das veias) seria o trazer à memória aquelas ações que o Senhor recomenda que não se devem fazer contra o próximo e que, não obstante a Palavra do Senhor, o ser humano pratica de má vontade.

3) A fase sistólica (sístole ─ na qual as câmaras do coração se contraem, bombeando o sangue para a periferia através das artérias) será viver segundo a ética cristã que o Senhor ─ o Bom Pastor e Juiz da História ─ sugere no Evangelho segundo Mateus, no capítulo 25, como o “sangue novo” que são as obras de misericórdia.

As obras evangélicas de misericórdia, na forma como são apresentadas, mostram-nos também os “batimentos cardíacos” de Jesus identificados com as situações de fragilidade dos seres humanos: Tive… tive…. não tinha…. estive… estava… afirmações de situação e de lugar identificadas com os seus irmãos mais pequeninos. É Jesus a aperfeiçoar o nosso entendimento da palavra do Levítico, como que a dizer: Eu sou o Senhor que está ali no irmão que tem fome, que tem sede, que é peregrino e está nu, que está doente ou preso.

Entre as ovelhas e os cabritos, o que é determinantes não é a inteligência, ou seja, a função do “quartel-general” que é o cérebro a determinar a salvação, mas a ação motivada pela Sabedoria de Deus que é Sabedoria do coração, que leva a fizestes em vez do deixar de fazer. É curioso que a expressão “quando Te vimos” nas perguntas das ovelhas venha repetida em relação às diversas situações em que fizeram o bem e, no caso dos cabritos uma só vez em relação a todas as situações. Na verdade, para os “cabritos” tanto faz que os pobres estejam nesta ou naquela situação, se não estão motivados para os ajudar na própria situação ou condição onde se encontram os pobres. Já para os “justos”, cada pessoa vale como é e onde está, para ser digna da solicitude do Evangelho que é boa notícia encarnada ou circunstanciada para todos.

O caminho quaresmal através do deserto para a liberdade é, por isso, uma oportunidade para a conversão do olhar de maneira a transformar as motivações do coração. Assim como é o olhar de uma mãe que faz maravilhoso o seu filho, também é o olhar de Deus que nos tem como preciosos a Seus olhos, não obstante as nossas fragilidades e misérias. Apoiados no seu amor, somos convidados a educar o nosso olhar para sermos capazes de ajudar a transformar tudo e todos os que vejamos, para fazermos maravilhoso tudo o que conseguirmos abarcar e alcançar com o olhar do coração. Se, na ordem física, este bate para além da vida aparente é porque São Paulo tinha razão: a caridade não acaba nunca e no entardecer da vida seremos julgados pelo amor (São João da Cruz).