L 1 Is 58, 1-9a; Sl 50 (51), 3-4. 5.6a. 18-19 Ev Mt 9, 14-15
Hoje a liturgia dá-nos a oportunidade de fazermos a receção do verdadeiro sentido do jejum. Convém, de antemão, para não descartarmos nenhum aspeto importante, de incluirmos as dimensões que o tornam credível: por um lado o seu sentido teológico ou conteúdo, por outro, o seu método ou disciplina que o torna credível.
Primeiro, nunca será demais olhar para o sentido teológico do jejum, ou seja, o jejum que agrada a Deus, para que o caminho quaresmal não seja em vão. É que o jejum não se substitui a outras obrigações, à frente das quais estão as da justiça e as da caridade (que amanhã aprofundaremos). As palavras que Deus diz através do profeta Isaías são claras sobre o jejum que Lhe agrada:
…quebrar as cadeias injustas, desatar os laços da servidão, pôr em liberdade os oprimidos, destruir todos os jugos? Não será repartir o teu pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao teu semelhante?
A prova de que agrada a Deus é a promessa da sua eficácia:
Então a tua luz despontará como a aurora e as tuas feridas não tardarão a sarar. Preceder-te-á a tua justiça e seguir-te-á a glória do Senhor. Então, se chamares, o Senhor responderá; se O invocares, dir-te-á: ‘Estou aqui’».
De facto, de que vale um cumprimento meramente aparente das obras ascéticas da quaresma se não houver proveito para o bem das nossas almas, quer dizer, da nossa vida interior, e para a verdadeira vivência do sentido dessas mesmas obras? Os discípulos de João Batista cumpriam o jejum, mas não tinham e não andavam com Jesus! E quando se anda com Jesus, o que mais nos falta? Ninguém faz luto por causa da presença física de quem se ama!
Em segundo lugar, é necessário um método preciso, uma disciplina, para que o jejum possa cumprir o que promete: o encontro com Cristo nas suas mais amplas valências: as que se referem ao culto e as que se referem à cultura (quer dizer, ao “cultivo” da fé), as que se referem à espiritualidade e as que se referem ao testemunho. Para isso, precisa de uma disciplina comunitária, para não ficarmos fechados dentro de um espiritualismo subjetivista. O método é-nos sugerido pela dimensão comunitária da fé contido na proposta concreta da Igreja. Ou seja: o jejum não pode ser um mero feetness pessoal que levaria a que os membros deste corpo eclesial ficassem desequilibrados. É preciso, também, um feetness do corpo eclesial ─ através das propostas básicas canónicas da Igreja ─ que nos incentive a todos e nos envolva a todos na missão, para que seja todo o corpo eclesial a agradar a Deus e não só uma sua parte.
É a Palavra de Deus que nos iluminará a empreendermos este caminho quaresmal, para que nos ajude a chegar ao bom porto da Páscoa. E a Palavra é o próprio Jesus Cristo: é Ele o conteúdo do jejum verdadeiro, uma vez que é o nosso principal alimento. Há, no fundo do sentido do jejum, um paradoxo que só na confiança em Jesus poderemos ver resolvido: quando não nos parece ter Cristo por perto, a privação de bens ou de bem-estar ajuda-nos a colocar a hipótese de valorizarmos o ter fome d’Ele. Quando temos uma perceção de O termos dentro e no meio de nós, habituar-nos-emos aos bens e ao bem-estar essencial, sem dar lugar aos excessos que nos afastam da visão de Cristo e de participar da sua missão. É este paradoxo que nos permite ver algures no “deserto quaresmal” o “poço” da água viva ou, se quisermos, a “árvore da vida” dos quais nos será sempre permitido beber ou comer (como a Adão e Eva). Para nos afastarmos do perigo que é substituirmos Deus como princípio, meio e fim da nossa história, perigo este provocado pela irresponsabilidade no que toca ao comer da “árvore do conhecimento do bem e do mal”.
Só levando a sério o conteúdo/sentido teológico e o método/disciplina eclesial do jejum é que poderemos viver aquela fidelidade criativa que é consequência do encontro com Cristo e que tem como finalidade o amor a Deus e ao próximo, que tem como benefício colateral a salvação das nossas almas.
O jejum cristão, na base da relação com uma pessoa, é diferente do jejum reivindicado pelos discípulos do Batista e dos fariseus, que o viviam na base da relação com uma lei. O jejum vivido pelos discípulos de Jesus tem como consequência a busca ou aprendizagem da coerência de vida.
