L 1 1Rs 11, 4-13; Sl 105 (106), 3-4. 35-36. 37 e 40; Ev Mc 7, 24-30
Reflexão inspirada em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.
Na cena de hoje, Jesus parece-Se com um chefe de Estado ou o próprio Papa, quando “furam” o protocolo. Era suposto a salvação obedecer a uma ordem: primeiro aos judeus, depois aos gentios. Porém, Ele sabe ser o salvador universal e, de vez em quando, faz como o Santo Padre, que chegou a sair às escondidas para fora do Vaticano, sem guarda costas e tentando passar despercebido, o que é muito difícil.
Uma presença surpreendente nova não é só muito querida por quem pertence ao mesmo padrão de valores tradicionais, mas sobretudo por quem é visto como distante dessas tradições. Ainda mais quando alguém importante ligado a esse referencial de valores, por vezes, quebra o padrão. O método de Jesus é como que um “amplificador de sinal”, fazendo daquelas pessoas que O provocam ou que se deixam tocar por Ele como que “repetidores de sinal” da sua Presença salvífica. Em boa medida, Ele também era novo para os judeus, sendo a encarnação de Deus!
Nos Evangelhos, como nas Cartas de Paulo, aparece um paradoxo entre a prioridade atribuída a Israel e a consideração da fé sozinha desvinculada de todo o apriorismo sagrado. Talvez pese na tradição do Povo de Deus o privilégio dado a David, por causa da sua fidelidade a Deus, conforme se prevê da atenuação no agir de Deus em relação a Salomão e a seu filho. Também o filho de Salomão, apesar do pecado de seu pai, ficou a “migalha” carinhosa de uma tribo. É assim o Deus que Jesus Cristo manifesta com as suas palavras e obras: Alguém que não ostraciza por causa do pecado, mas, educando com correção, deixa sempre uma réstia de bênção para que se possa recomeçar. A mulher siro-fenícia, apesar de pagã, está consciente desta precedência sagrada do povo judeu e aceita-a humildemente, mas também tem a confiança neste Deus cuja abundância de graça não descarta os mais pobres (não só de dinheiro, mas também de saúde, de cultura, de religião, etc.). Só este aspeto paradoxal nos pode ajudar a moderar uma positiva, embora pedagogicamente crítica, receção da Declaração Fiducia supplicans ou “Confiança suplicante”. Quer a postura pedagógica de Deus, quer a postura de Jesus nunca foram de equiparar o bem com o mal, mas de cuidar as pessoas, propondo um caminho construtivo, para não deixar ninguém sozinho num retrocesso desdignificante. Nestas coisas, deverá imperar a Vontade de Deus manifestada nas suas ações históricas, mesmo que não caiba no nosso pensamento ou não tenham em conta todas as nossas razões.
À primeira vista, na sua resposta, Jesus parece ser muito duro, porque o cão, na cultura bíblica, é um animal desprezível. No entanto, os “cachorrinhos” são considerados animais domésticos, estimados pelas crianças que, durante as refeições, lhes dão de comer. Em certo sentido, fazem parte da casa. Superando os preconceitos, Jesus assume que a fé não tem nacionalidade, afirmando “dizes muito bem”, ou seja, tudo o que disseste mostra que tens fé. E é a fé, manifestada em sinais, que vale como meio de comunicação eficiente entre Deus e o homem. Deus, entre a correção e a bênção, é bom para com todas as gerações, de forma equitativa. Assim Jesus, acrescenta ao bem feito àquelas duas gerações do núcleo familiar mãe-filha o amor estendido a todas as re(li)giões.
Este episódio mostra como é difícil assumir realmente a universalidade da mensagem da salvação, para além das fronteiras culturais, espaciais, temporais e, inclusivamente, religiosas. No diálogo com esta mulher, Jesus não esconde que é um homem judeu, mas também não esconde que é Deus.
“Repetidores” deste sinal foram o São Jerónimo Emiliano e a Santa Josefina Bakhita, de quem recebemos os seguintes testemunhos, respetivamente:
O nosso bom Senhor, querendo aumentar a vossa fé (sem a qual, como diz o Evangelista, Cristo não pôde realizar muitos sinais) e atender a vossa oração, decidiu servir-Se de vós assim: pobres, maltratados, aflitos, fatigados, desprezados por todos, e agora por fim privados até da minha presença física, se bem que não do espírito do vosso pobre e muito amado pai.
São Jorónimo Emiliano
Como escrava, nunca desesperei, porque sentia uma força
Santa Josefina Bakhita
misteriosa que me sustentava. O amor de Deus sempre me acompanhou de modo misterioso… O Senhor amou-me tanto: é preciso amar todos… É preciso compadecer-se!
