L 1 1Rs 8, 22-23. 27-30; Sl 83 (84), 3. 4. 5 e 10. 11 Ev Mc 7, 1-13
Na Memória dos Santos Mártires Paulo Miki e Companheiros
O grande erro dos escribas e fariseus ─ a que podemos chamar de corrupção mais grave que o pecado, porquanto doutrinam e julgam sem a autoridade do verdadeiro Fundamento ─ terem-se como mediações de Deus sem qualquer confronto ou avaliação, substituindo a Verdade que performa a verdadeira vida por uma convenção que generaliza e absolutiza uma só dimensão da vida terrena. Por isso, ao olharem para as atitudes dos outros veem pouco, porque usam lentes embaciadas pelo próprio torpor.
Pelo mesmo foco dos escribas e fariseus ─ e infelizmente acontecerá não raras vezes por parte de alguns cristãos ─ poderíamos ser levados a olhar os Santos, como os mártires de que hoje fazemos memória, como quem soube higienizar bem as mãos entre as praças públicas e a mesa, lavando também muito bem os copos, os pratos e os talheres, como meros cumpridores de leis humanas. Ignoraríamos que, para ser reconhecidos portadores da santidade que vem de Deus, tiveram de fazer um percurso de uma purificação mais profunda, a da mente e do coração, que permite olhar e agir como testemunhas de Deus diante dos irmãos. A vida dos Santos não é, nunca foi, asséptica (dic. “extremamente asseado” ou “estéril”)! Quantas mãos sujas com um coração puro! E quantas mãos vazias, embora limpas! Até o lavar de mãos de Pilatos é menos criminoso!
Está claro que os escribas e os fariseus não gostavam de se misturar ou de se cruzar com quem atribuíssem um ínfimo grau de “impureza”, na sua maneira de ver muito subjetiva ou intersubjetiva. Temos de os compreender: ainda não conheciam a dimensão sinodal do caminhar juntos iniciada por Jesus. A “tradição dos antigos” que, porventura, terá sido imposta para livrar o povo de uma qualquer peste, foi eternizada sob o jugo de uma lei espiritual. Não admira que os discípulos de Jesus vissem mais longe, percebendo que há um todo que é maior do que a parte e uma memória que é mais importante que o espaço.
A resposta de Jesus não é leve e só precisou de citar algo muito importante de que se tinham esquecido ou que não tiveram lido:
Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. É vão o culto que Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’. Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens.
Assim como uma desobediência à Lei de Moisés a troco de uma “oferta sagrada” que não tem nada que ver com a Palavra de Deus. A “hipocrisia” estará em fazerem da evocação daquele tipo de tradições uma espécie de “pulseira eletrónica” para controlar a consciência e o agir das pessoas em favor de interesses particulares. E faziam muitas coisas com este intuito com a tradição que transmitiam.
Ouvir estas palavras, para nós cristãos, confere-nos uma grande responsabilidade. A forma como julgarmos seremos julgados! Há sempre o risco de corações vazios quererem controlar os corações cheios de Deus. E há muita tristeza que não se transforma em alegria pelo facto de se boicotar o caminho que permite o anúncio e a vivência da mesma. O Santo Padre tem vindo a avisar-nos sobre o perigo da autorreferencialidade por causa disto mesmo: de projetar na vida de fé ou da própria Igreja o que o Evangelho e o Magistério não previram e, por isso, muito menos Deus. Porque a função da Tradição é transmitir Deus, com aquela fidelidade criativa com que Cristo viveu e nos ensinou a agir.
Jesus procura fazer compreender a diferença que existe entre o mandamento de Deus e a tradição dos homens, porque, no tempo em que estes factos se passavam, os usos e costumes que os homens tinham acrescentado à lei de Deus chegavam a deturpar a própria lei, como no caso citado; certos hábitos religiosos de invenção humana passavam à frente da justiça e da caridade. É sempre uma grande tentação ficar preso à letra, e não conseguir, por isso, chegar até ao espírito; mas «a letra mata, o espírito é que dá a vida».
A oração de Salomão proclama um Deus que está próximo, um Deus inigualável, nem lá no alto dos céus, nem cá em baixo sobre a terra, para Quem ninguém pode construir um lugar onde Ele caiba. Por isso, ele sugere que se ore com humildade e com súplica de perdão. O templo há de encontrar a sua expressão mais perfeita na santíssima humanidade de Jesus Cristo, “em quem reside toda a plenitude da divindade”.
A História do martírio de São Paulo Miki e seus companheiros, escrita por um autor do séc. XVI (cf. leitura do Ofício de hoje) permite-nos contemplar que aquela “constância de todos, à qual eram exortados” é uma expressão de fé nas coisas perenes da revelação de Deus em favor da humanidade. No meio do martírio, dão-nos testemunho de que Deus não cabe neste mundo e se aqui está por Jesus e os seus seguidores missionários é para nos mostrar um mais além para onde tende a história da salvação. As tradições ou atiram para este mais além ou têm de ser avaliadas e, se preciso for, descontinuadas, para no tempo de vida física útil, as pessoas poderem ver bens maiores. Agora, pensemos: quantas gerações e gerações se perderam em “detritos” de religião, passando ao lado da proposta de salvação trazida por Cristo?!
No meu modo humilde de ver, a importância do caminho sinodal sobre a Sinodalidade da Igreja que estamos a viver, à luz da Palavra de hoje, não está tanto e meramente no ar de novidade e nas transformações que pode trazer à prática da fé. Já será uma grande transformação se for uma conversão ao coração de Cristo que nos revela o Pai no Espírito Santo, ou seja, se, juntos, a partir da oração, descortinarmos que tradições humanas estão a prejudicar a ação salvífica de Cristo.
