navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Jb 7, 1-4. 6-7; Sl 146 (147), 1-2. 3-4. 5-6 L 2 1Cor 9, 16-19. 22-23 Ev Mc 1, 29-39
No V DOMINGO DO TEMPO COMUM (B)
Dia Internacional da Fraternidade Humana

Teria sido interessante que Job se tivesse cruzado com Jesus, numa daquelas ruas da Galileia. Teria, em pessoa, encontrado A resposta a todas as suas orações. Enquanto Job sonhava que as suas palavras de fé fossem escritas, ao jeito de um epitáfio de morte ou de testamento espiritual, com estilete de ferro numa rocha firme (cf. Jb 19,24-27), Deus estava a preparar a Sua resposta viva escrita na mesma carne de Job.

Job é um modelo orante no sofrimento, porque não deixa de dialogar com Deus, em Quem crê, apesar da dor, cuja solução desconhece. A sua oração é como a de Simeão e Ana ─ em outro contexto e situação ─ como a de muitos homens e mulheres que esperaram a salvação.

Acredito que Job está no Reino de Deus a ver, de lá, os upgrades que Deus fez com a Incarnação do Verbo, não só a respeito das curas que Jesus realizou para recuperar a saúde de muitos, mas também a respeito da nova e definitiva autoridade com que Jesus ensinou verdades para edificar uma nova relação com Deus e instaurar uma nova paz na relação com os outros. Sinal disso ─ no nosso contexto e situação ─ é a instituição e vivência do Dia Internacional da Fraternidade Humana.

Esta celebração responde ao apelo claro que o Papa Francisco tem lançado a toda a humanidade para construir um presente de paz no encontro com o outro. Em outubro de 2020, esse convite tornou-se ainda mais vívido com a Encíclica Fratelli tutti. Estas reuniões são um modo de alcançar a verdadeira amizade social, como o Santo Padre nos pede.

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As perguntas que Job se coloca no meio da tribulação são as perguntas que hoje em dia os que sofrem colocam, sobretudo quando se sentem sozinhas. Job não sofria somente por causa das suas maleitas físicas graves, mas também das críticas religiosas que lhe faziam! Por isso, o Papa Francisco, na Mensagem para o Dia Mundial do Doente (11 fev 2024), nos convida a meditar a partir do tema: «Não é conveniente que o homem esteja só». Cuidar do doente, cuidando das relações.

Irmãos e irmãs, o primeiro cuidado de que necessitamos na doença é uma proximidade cheia de compaixão e ternura. Por isso, cuidar do doente significa, antes de mais nada, cuidar das suas relações, de todas as suas relações: com Deus, com os outros – familiares, amigos, profissionais de saúde –, com a criação, consigo mesmo. É possível? Sim, é possível; e todos somos chamados a empenhar-nos para que tal aconteça. Olhemos para o ícone do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37), contemplemos a sua capacidade de parar e aproximar-se, a ternura com que trata as feridas do irmão que sofre.

Recordemos esta verdade central da nossa vida: viemos ao mundo porque alguém nos acolheu, somos feitos para o amor, somos chamados à comunhão e à fraternidade. Esta dimensão do nosso ser sustém-nos sobretudo no tempo da doença e da fragilidade, e é a primeira terapia que todos, juntos, devemos adotar para curar as doenças da sociedade em que vivemos.

A vós que vos encontrais na doença, passageira ou crónica, quero dizer-vos: Não tenhais vergonha do vosso desejo de proximidade e ternura. Não o escondais e nunca penseis que sois um peso para os outros. A condição dos doentes convida-nos a todos a abrandar os ritmos exasperados em que estamos imersos e a reentrar em nós mesmos.

Mensagem do Santo Padre

Ao contrário de Job, sofredor e incapaz de superar o mal, Jesus cura as doenças e expulsa os demónios. Assim Se afirma Senhor da vida e da morte, e anuncia desde já a ressurreição. E quer levar esta Boa Nova a toda a parte; por isso, não se deixa ficar preso pelos interesses, sempre limitativos, dos seus beneficiários, mas alarga a sua ação a todos os lados. A atividade intensa em favor dos outros não impede que Jesus cuide, pela oração, da sua relação com o Pai. Ele sabe cuidar destes dois tipos de relação que, n’Ele, acabam por encontrar uma bela síntese: a relação com Deus e a relação com os outros.

No Prefácio de uma obra recente do padre italiano Antonio Spadaro, o Papa Francisco escreve:

Não há história sem trama. Deus entrou na trama das vicissitudes humanas com uma história que pode ser contada: Jesus comove-se, aproxima-se, toca na dor e na morte e transforma-as em vida. Precisamos neste tempo de crise da ordem mundial, de guerra e de grandes polarizações, de paradigmas rígidos, de graves desafios a nível climático e económico precisamos da genialidade de uma linguagem nova, de histórias e imagens poderosas… de ver Jesus.» Antonio Spadaro escreve com palavras que se tornam imagens, que contam histórias. E nós leitores, fazemos parte da multidão, dos acontecimentos… Entramos na vida de Jesus e ele nas nossas.  Sim, é um filme para ler.

A forma como Marcos nos relata a cura da sogra de Pedro diz-nos muito sobre qual um centro importante à volta do qual girava a vida das pessoas: a casa. Anselm Grün fala-nos de outros centros de poder para além da casa: o mercado, o castelo e o templo. Este consagrado alemão reflete que nestes domínios exerce-se o poder de maneiras diferentes. As pessoas que os habitam devem interrogar-se como o fazem. Existe um poder mau que tende a manipular ou a descartar os outros, onde a pessoa que o exerce se serve com o bem ou o mal dos outros; e existe um poder bom que convence os outros de uma crença saudável, sem assustar as pessoas. Uma coisa é certa: ninguém seja ingénuo ao ponto de dizer que não tem poder nenhum. Todas as pessoas têm poder. A questão fundamental é discernir se, com as atitudes, se exerce um poder bom ou um poder mau (cf. Grün, Anselm. Poder ─ Uma força sedutora. 1a edição. Apelação: Paulus, 2020).

No seu estilo de vida itinerante, Jesus mostra-nos mais dois centros de poder: o “sítio ermo” onde Ele ia muitas vezes para orar (pode representar a oração pessoal de cada um de nó) e as “povoações vizinhas” onde Ele queria expandir a sua missão de ensinar e curar (as “periferias” da exiatência humana). Ora, se Jesus é o modelo do cristão, então, não há justificação nenhuma para descuidarmos o cuidado e a relação dentro de casa e fora de casa, tendo o centro de culto como ponto de encontro das famílias e das pessoas e ponto de partida ao encontro de todos. Um dia, uma criança, em Roma, perguntou ao Papa João Paulo II “porque viajas tanto?” E aquele Santo Padre respondeu-lhe “porque o mundo não está todo aqui!” (cf. AURA MIGUEL, Porque viajas tanto? Lucerna, 2005).

Não façamos, pois, das nossas casas, igrejas e grupos ou movimentos eclesiais, antecâmaras do cemitério ou de uma mera “boa morte”, mas pontos de partida para a missão que é incluir a todos na possibilidade da vida eterna. O episódio recordado na Festa da Apresentação do Senhor mostra-nos que os templos de pedra são meramente “andaimes” dos verdadeiros Templos que, em Cristo e no Espírito Santo, o Pai nos chama a ser para sinais da Sua glória e de salvação para todos.