navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

At 22, 3-16 ou At 9, 1-22; Sl 116, 1. 2 Ev Mc 16, 15-18
Na Festa da Conversão de São Paulo, Apóstolo
Reflexão inspirada em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

A conversão de Saulo, o implacável perseguidor fariseu, hoje celebrada pela Igreja. este acontecimento prova que a Deus nada é impossível. E é no encontro com Cristo Ressuscitado que ele experimenta a misericórdia de Deus.

No Salmo 116 cantamos “É firme a sua misericórdia para connosco…”. Abro aqui este parêntesis para lembrar que o amor incondicional de Deus se traduz em misericórdia. O amor é a essência divina. Não é o nosso pecado a causa da misericórdia de Deus, como se esta fosse mera resposta ao pecado. Não! Deus é eternamente misericordioso. (Cf. AMEDEO CENCINI, Misericordia e famiglia)

O Ressuscitado mostra-lhe que é Ele que vive na Igreja que, para o Papa Bento XVI, “com todas as suas insuficiências, é verdadeiramente o seu corpo” (Testamento espiritual). Tal visão miraculosa torna-se tão marcante para Saulo que ele decide deixar-se transformar naquilo que ele perseguia: ser cristão. Considerou tudo o que estava para trás como “lixo” e, assumindo o nome de Paulo, que quer dizer pequeno, aceitou a grande missão de anunciar aos gentios a Boa Nova.

Nesta reflexão de hoje, Gostaria de centrar esta minha reflexão no papel de Ananias. Apesar do medo por causa do que ouvira dizer sobre Saulo, acolhe confiante o convite de Jesus a ir ter com ele, informando-o de ter sido um instrumento escolhido por Ele para levar o seu nome ao conhecimento dos gentios.

Este encontro entre Ananias e Saulo pode ser o protótipo dos encontros improváveis com muitos dos nossos irmãos e irmãs que vivem caídos do seu orgulho, vencidos por uma intervenção divina que ainda não sabem descrevere por causa das “escamas” que têm nos seus olhos.

É Ananias que ajuda Saulo a compreender a luz que a sua intolerância o impedia de ver. Está bem patente naquele encontro em casa de Ananias o essencial ou núcleo dos sacramentos da iniciação cristã, que ao longo da história se expandiu em ritos mais separados e prolongados.

Tanto Saulo como Ananias têm de sair de algo para que aconteça o encontro que o amor de Deus possibilita: um de perder o orgulho e o outro perder o medo. O orgulho por deixar a intolerância; o medo de se perder a identidade cristã por causa de um abraço a um homem caído. “Se nos ficamos pela defesa da nossa identidade acabamos por absolutizar as ideias. Jesus, com o seu coração manso e humilde, ajuda-nos a fazermo-nos próximos de quem é diferente. A experiência do amor cristão deve abrir caminhos para a unidade e não para a divisão, para construir em vez de dividir, para cuidar do outro como a nós próprios.” (Pe. António Sant’Ana, s.j., Diretor da Rede Mundial de Oração do Papa em Portugal)

O tema da Evangelização é um tema muito comum entre os Evangelistas e o Apóstolo Paulo. Com Marcos, Paulo comunga a afinidade com a globalização do Evangelho. “a todo o mundo”, como em Rm 1,8, e “toda a criatura”, como em Cl 1,23. Estamos no núcleo do Evangelho da Missão, onde, claramente, Jesus certifica a salvação no ato de crer n’Ele, vivendo, pelo Batismo, uma vida plena. Não está explícito, mas pode supor-se que ao menos o desejo de ser batizado para não se ser condenado. O ambiente em que surge este anúncio parece ser “carismático”, próprio de uma comunidade primitiva ainda pouco institucionalizada, em contraste com a comunidade de Mateus, que fala de fazer discípulos e de um Batismo segundo um determinado rito litúrgico, e de fazer observar os mandamentos de Jesus.

Nós vivemos num tempo em que somos convidados a conviver com muitas diferenças culturais, que se cruzam entre a sociedade e a Igreja. Aceitemos o desafio difícil, mas ao mesmo tempo libertador, do urgente acompanhamento das consciências. Também para o nascimento de uma cultura vocacional se requer o trabalho em volta de três fatores (cf. AMEDEO CENCINI, Congresso pastoral de cultura vocacional):

1) Consonância de mentalidades (ensino social e religioso)

2) Trabalho sobre a sensibilidade pessoal ─ estética, moral, etc. (no contacto com a Beleza de Deus na Liturgia e na oração)

3) A pedagogia (acompanhamento personalizado)

Estes elementos podem ser uma nova forma de dizer o tríplice múnus do serviço sacerdotal cristão.