navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 2Sm 6, 12b-15. 17-19; Sl 23 (24), 7. 8. 9. 10 Ev Mc 3, 31-35

A relação entre as duas leituras de hoje parecem falar de um ambiente muito diferente: por um lado, a conquista de Jerusalém e a entronização da Arca de Deus na tenda ou primeira versão de um Templo; por outro, a presença do verdadeiro Templo que é Jesus e o seu não reconhecimento devido por parte dos seus.

Na primira leitura, um tempo de conquista e de estabilização do culto. No Evangelho, um tempo de confusão e de vazio. Esta situação talvez se devesse à confusão do papel do sacerdote do templo no tempo de Jesus.

Segundo nos leva a crer o historiador Eusébio, do séc. IV d.C., o evangelista Marcos escreve num tom que tem subjacente uma reação à polémica contra o risco do “nepotismo” (veja o que quer dizer aqui) na Igreja. No fundo, trata-se de um ainda não conhecido “Sumo Sacerdócio” que está presente em Jesus, título atribuído pela Carta aos Hebreus. Para além desta Carta, Jesus nunca é chamado Sacerdote ou Sumo Sacerdote. Ele não tem nenhum título a reivindicar o sacerdócio, pois nasceu da tribo de Judá. Ele frequenta o Templo como fiel entre os fiéis e vai lá, sobretudo, para o purificar ou para aí anunciar a própria mensagem, para escândalo das autoridades. Isto leva-nos a crer que Jesus funda um novo tipo de sacerdócio, fundado numa nova aliança com Deus e a partir de uma nova familiaridade com a Palavra de Deus e com outros sentimentos e motivações que estão em Jesus (cf. Joseph AUNEAU, O Sacerdócio na Bíblia, Lisboa: Difusora Bíblica, 2000, 48).

Joseph AUNEAU, na obra acima citada, quando reflete sobre “Sacerdócio e Sociedade”, quando investiga sobre “os sacerdócios no médio oriente antigo”, aprofunda que o sacerdócio ocupava um lugar preponderante, devido à grandeza das suas funções sagradas, à delegação real e ao prestígio do saber. Geralmente, chegava-se ao cardo sacerdotal por hereditariedade, por vezes, por agregação e mesmo por simples compra da função. Estes procedimentos favoreciam a constituição de verdadeiras dinastias sacerdotais e geravam geralmente um espírito de casta. As diversas vantagens ligadas à função deviam ser muito desejadas. Não era raro ver nas mais altas responsabilidades membros da família real. O rei tinha interesse em vigiar de perto os grandes templos do reino. Na sua época de prosperidade e de poder, os templos podiam ser tentados a ter uma relativa independência e, na primeira ocasião, confiscar o poder. A querela do Sacerdócio e do Império não aconteceu apenas na Idade Média. À volta dos grandes templos do oriente, a hierarquia compreendia graus diversos e uma multiplicidade de classes e de funções com um caráter sacerdotal muito marcado. Para além dos levitas, havia muitos servos para atividades administrativas e materiais. Por isso, olhando para aqueles tempos primitivos, é-nos muito difícil definir a qualificação “sacerdotal”, associada a categorias diferentes, faltando uma definição rigorosa e aumentando a confusão. E a “confusão real”, nestas como noutras classes, costumava existir para “reinar” em vez de servir.

Em Jesus surge um novo e sumo sacerdócio, fundado segundo uma outra “ordem”, a “de Melquisedec”. A Palavra de Deus saúda Jesus com o título de Sumo Sacerdote à maneira de Mesquisedec, tornado perfeito, princípio de salvação eterna (Heb 5,9-10). Os elementos que favorecem a atribuição da ordem “superior” de Melquisedec a Jesus são: a ausência de uma genealogia sacerdotal humana, o pagamento do dízimo por parte de Abraão e a bênção deste por parte de Melquisedec, colocando-se como seu superior. Tudo leva a crer que o sacerdócio antigo precisava, pelas suas imperfeições, de uma mudança. A expressão “outro sacerdote” aparece muitas vezes na Carta aos Hebreus a corroborar a novidade do sacerdócio anunciada em Jesus Cristo. (Cf. Joseph AUNEAU, O Sacerdócio na Bíblia, 51)

Com todas estas questões históricas, já nos é possível compreender melhor que o ambiente que Jesus encontra à volta do Templo não é o mesmo do tempo de florescimento espiritual do povo acompanhado por David. Jesus veio para fundar uma nova família que implica uma nova forma de existência, apoiada na Palavra e nas obras que refletem a vontade de Deus. Por isso, Jesus manifesta-Se com autoridade divina. Não admira que os escribas descidos do Templo de Jerusalém lhe impusessem um processo disciplinar e os seus familiares o viessem a considerar louco.

Também hoje, viver um estilo de vida sacerdotal mais pastoral à maneira de Jesus nem sempre é fácil. Quantas vezes, em vez de correspondermos à sabedoria e aos sentimentos do Bom Pastor, nos vemos a perder tempo e energias a satisfazer as expetativas da sociedade…