navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 2Sm 7, 4-17; Sl 88 (89), 4-5. 27-28. 29-30 Ev Mc 4, 1-20
Na memória de São Francisco de Sales
Comentário inspirado em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

Há uns anos ouvi falar da criação de um grupo de luta contra a pobreza, ao qual foi dedicada uma generosa verba, para se começar a criar medidas de ajuda aos pobres. O grupo concreto de pessoas começou por arranjar uma sede, um logótipo, a logística necessária e, quando chegou o momento de concretizarem alguma ação em favor dos pobres, aquele plafond de dinheiro já tinha sido todo gasto.

Segundo se percebe na primeira leitura de hoje, Deus estaria mais bem contente em habitar numa simples tenda e no coração de um Povo itinerante. Por isso, manda Natã dizer a David que Ele é que estabelecerá em seu lugar um descendente para consolidar a sua realeza, em vez de ser ele a fazer-lhe um palácio.

No Evangelho segundo Marcos, relata-se que Jesus começou a sua missão à beira-mar diante de uma grande multidão sem paredes de permeio, a não ser uma pequena distância para que todos O pudessem escutar, desde aquela barca. É que no novo culto fundado por Ele, há uma relação de grande respeito entre a autoridade de Quem fala e a liberdade de quem escuta. Por isso, Jesus começa por falar em “parábolas”, para que, a partir de elementos da natureza que as pessoas comecem, possam ser levadas a descobrir mistérios mais profundos da realidade do Reino.

O episódio de hoje faz-me lembrar a necessidade que os párocos têm, por vezes, de celebrar Missas campais. Por vezes, é um incómodo, pois obriga a montar toda uma logística que implica tempo e mão de obra. Celebrar estavelmente dentro de um templo, desde este ponto de vista, é mais fácil. As duas coisas são necessárias, mas nem sempre nos é possível encontrar o equilíbrio em falar às multidões e a grupos pequenos. Quase sempre a nossa pregação fica fechada dentro de portas, confiando-nos no testemunho dos cristãos que são assíduos às assembleias dominicais. De vez em quando, fazia-nos bem, assim como à pastoral da Igreja, anunciar fora de portas através de palavras mais simples, utilizando uma linguagem que reúna elementos conhecidos com verdades eternas. É verdade que também o fazemos através dos jornais e das redes sociais, mas a proclamação da Palavra e a celebração da Eucaristia num descampado tem um impacto inigualável, como o provam as Jornadas Mundiais da Juventude e as celebrações dos grandes santuários em datas festivas.

No Evangelho de hoje vemos claramente a relação entre o primeiro anúncio e a formação inicial dos apóstolos. A afirmação “quem tem ouvidos para ouvir, oiça” é o apelo à “obediência responsável”, ou seja, a capacidade de ouvir e de responder na medida da própria liberdade (em que, também, somos chamados a ser responsáveis). Os apóstolos em formação, parecem estar no “propedêutico”, uma vez que Jesus lhes diz: “se não compreenderdes esta parábola, como haveis de compreender as outras?”.

O ministério de Jesus move-se em dois círculos: um que envolve a todos e outro onde acompanha o grupo fechado dos Doze. Assim o ministério presbiteral acontece entre os que se encontram connosco mais assiduamente, nas assembleias litúrgicas e em reuniões de programação e realização da missão, e com pessoas que só participam de vez em quando, em festas familiares ou festas comunitárias esporádicas. Nestas ocasiões, somos convidados a saber lançar o “isco” através de símbolos e linguagem que cative. O importante é ter o coração onde está o dever, como advertia São Francisco de Sales: “é sempre má a distração do coração que leve a ter o coração num lugar e o dever noutro”.

Tanto São Francisco de Sales como o rei David viveram em tempo e no meio de paradoxos e/ou contradições sociais/eclesiais: o Santo teve de se confrontar com o jansenismo e o rei com a sedentarização do povo. David preocupou-se mais com a construção de um Palácio; São Francisco de Sales com a construção das pessoas.

No meu modo humilde de ver, a misericórdia é o sinal a indicar para onde pende o nosso coração. Se tudo o que fazemos fazemos por causa do bem das pessoas, há misericórdia. Se o que fazemos tende a apoiar-se pelas coisas em si, há o perigo de haver mais rigidez no confronto com as pessoas.