navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 2Sm 5, 1-7.10; Sl 88 (89), 20. 21-22. 25-26 Ev Mc 3, 22-30Na memória do martírio de São Vicente | Reflexão inspirada em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

A graça, não só de acreditar em Cristo, mas também de sofrer por Ele / Confiança na palavra e coragem no sofrimento ─ é o duplo dom que Santo Agostinho refere São Vicente ter recebido e guardado. E não os guardaria se não os tivesse recebido. Por isso, exorta a que não se envaideça nem confie nas suas próprias palavras ou forças quando vem a tentação. E quando falamos bem e com prudência, assim como quando suportamos os males com coragem, é d’Ele que nos vêm a sabedoria e a força.

Só assim é que se pode entender a expansão em que se encontrou o rei David aos trinta anos, caminhando acompanhado pelos homens que o aclamavam rei, apoderando-se das fortalezas de Sião. E só se pode entender o combate de Jesus através de uma íntima unidade com o Espírito Santo que o Pai vertera sobre Ele. David combatera para conquistar território; Jesus pregou para o grande combate espiritual, quer dizer, para que o Espírito Santo tomasse posse para a instauração do Reino de Deus.

Outrora os jebuseus em reação a David, no tempo de Jesus os escribas de Jerusalém. Estes descem dali para executar um processo contra Jesus, de Quem ouviram dizer sobre as palavras e os milagres operados na Galileia. O “tribunal” de Jerusalém não tarda em proferir a sentença: “Jesus expulsa os demónios porque está de acordo com o príncipe dos demónios”. Teria feito bem aos escribas estudar Lógica, pois faltavam na sua sentença a premissa que Jesus pronuncia: ses Satanás expulsa Satanás, então trata-se de uma guerra civil e, por conseguinte, o seu reino está ameaçado. Ao querer defender o templo de Jerusalém, os escribas estão a deitá-lo ao abismo sem perdão: estão a barricar a entrada Àquele que lhe pode trazer a sua verdadeira “alma”, que é o Espírito Santo. Em substituição, mais tarde, Jesus referir-se-á somente ao Tempo do Espírito Santo que é o Seu Corpo (cf. Jo 2,21).

Infelizmente, também hoje, à volta dos templos de pedra, pode acontecer que muita má vontade feche as portas à verdadeira luz. Por isso, está sempre diante de nós uma sentença séria, a definida por Jesus ao distinguir duas espécies de pecados: “contra o Filho do homem” e “contra o Espírito Santo”. Uma coisa é não se deixar que a ideia ou vontade de um homem seja posta em prática; outra coisa é boicotar as inspirações de Deus quanto ao caminhar da Igreja na expansão do Reino que Jesus veio instaurar com a complacência do Espírito do Pai.

Porque é que os primeiros pecados são considerados menos graves que os segundos? É que os primeiros são só pecados; os segundos são atos pecaminosos disfarçados de virtude. De facto, é frequente haver populismos defensivos de um status quo com a máscara da máxima virtude. E não acontece só com a política! Como o Papa Francisco adverte, “existe uma grande diferença entre o pecado e a corrupção: para o pecador há sempre a esperança de redenção; para o corrupto, porém, é muito mais difícil”. Na melhor das hipóteses, o pecado procura o perdão; o corrupto não o quer, mesmo que se lhe ofereça! De facto, sem o Espírito de Deus é impossível viver a esperança de uma luz e do perdão que venham do Alto. Não é Deus a negá-l’O; é o ser humano a dispensá-l’O! Como o Santo Padre muitas vezes repetiu: “Deus nunca cansa de perdoar; nós é que, por vezes, nos cansamos de pedir perdão” (Oração do Angelus de 17/03/2013).

A primeira condição para ser perdoado é reconhecer-se pecador. Esta é uma forte investida de Jesus contra o farisaísmo, que doravante será sempre um pecado eclesial: quando os detentores da autoridade espiritual ocultam os seus pecados históricos, disfarçando-os de urgente necessidade e até de heroísmo oculto. O que escandaliza mais os fiéis não é que os responsáveis da Igreja pequem, mas que disfarcem os seus pecados sob o manto de absurdas e inexistentes virtudes!

Como se não bastasse esta dificuldade pastoral com o “tribunal” de Jerusalém, logo a seguir Jesus ainda sofre com a apreciação dos “seus” que dizem Ele estar louco. Por isso, o autor do segundo Evangelho mostra-se constantemente desconfiado com a comunidade judaico-cristã de Jerusalém, cujo “bispo” era Tiago, que pertencia ao grupo de Nazaré, cuja hostilidade para com Jesus era fortemente sublinhada por Marcos. Sabe-se, também, pelo historiador Eusébio, no séc. IV, que outros parentes de Jesus assumiram a direção da Igreja em Jerusalém. Talvez subjacente à reação de Marcos esteja a existência de uma polémica contra o risco de “nepotismo” na Igreja (veja o significado aqui). Ao longo da história da Igreja, este risco esteve sempre presente, quando os cargos eclesiásticos foram assumindo um caráter político, que os tornava muito apetecíveis, explicando-se as redes familiares ou populistas à volta das eleições papais, episcopais, etc. Contrariar esta tendência, só com o martírio, quer dizer, testemunho heroico dos dons de Deus. O nepotismo foi uma das razões (não a única, obviamente) a pesar na decisão sobre a vantagem do celibato obrigatório só para os bispos nas Igrejas de rito oriental e para os bispos e padres na Igreja católica ocidental.