L 1 Jn 3, 1-5. 10;
Sl 24 (25), 4bc-5ab. 6-7bc. 8-9
L 2 1Cor 7, 29-31
Ev Mc 1, 14-20
No Domingo III do Tempo Comum (B) ou Domingo da Palavra de Deus
Comentário inspirado em: VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

Com a Carta Apostólica “Abriu-lhes o entendimento”, em 2919, o Papa Francisco pediu que o terceiro domingo do tempo comum fosse o domingo da Palavra de Deus. Certamente, todos os domingos, cada Eucaristia inclui o tempo da Palavra. Mas, ele espera que possamos recuperar a consciência, pessoalmente e em comunidade, da felicidade de poder escutar e nos nutrir da Palavra de Deus. É a palavra de vida. Ela comunica-nos, sempre de novo, o que Deus nos oferece para entrar na sua Aliança, por meio de seu Filho Jesus Cristo. Ler, ouvir, compartilhar e orar as Escrituras é viver na Salvação. O Papa escreve: possa o domingo dedicado à Palavra fazer crescer no povo de Deus uma religiosa e assídua familiaridade com as sagradas Escrituras, tal como ensinava o autor sagrado já nos tempos antigos: esta palavra «está muito perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a praticares». Nesta Eucaristia, louvemos ao Senhor pelo dom da sua Palavra. Peçamos ao Espírito Santo que abra os nossos ouvidos e os nossos corações para escutar o que o Senhor nos quer dizer.
O mártir São Sebastião ─ venerado e procurado como santo padroeiro contra a peste, a fome e a guerra ─ é um exemplo muito eloquente de como alguém se pode deixar dinamizar pela Palavra de Deus e pelos frutos que desta familiaridade nos pode vir, na relação com as pessoas e com as instituições.
Sabem o que mais me admira em São Sebastião? Passo a dizer: é a capacidade que ele tem para ser acompanhador dos cristãos perseguidos na confissão da verdadeira fé. E o que mais me inquieta com admiração é que Sebastião estava ali, onde um cristão a caminho da morte poderia renegar à fé, animando a que não renegassem, preferindo a morte física que a morte eterna. No final terá de ser ele a dar o exemplo!
Ele tinha tudo para vencer do pondo de vista do sucesso mundano: era o soldado predileto do imperador Diocleciano e conquistou o posto de comandante da Guarda Pretoriana. No entanto, Sebastião, secretamente, converteu-se ao cristianismo e divulgou a doutrina entre os soldados, muitos dos quais se tornaram cristãos.
Valendo-se do alto posto militar, fazia visitas frequentes aos cristãos presos que aguardavam para serem levados para o Coliseu, onde seriam devorados pelos leões, ou mortos em lutas com os gladiadores. Com palavras de ânimo e consolo, fazia os prisioneiros acreditarem que seriam salvos da vida após a morte, segundo os princípios do cristianismo.
A fama de benfeitor dos cristãos se espalhou e Sebastião foi denunciado ao imperador. Este fez o que pôde para fazer com que Sebastião renunciasse ao cristianismo, mas não teve alternativa e mandou alvejá-lo. Não sendo desta que morre, Sebastião ainda tenta convencer o imperador de que não deveria perseguir os cristãos. Ignorando os seus pedidos, Diocleciano manda açoitá-lo até à morte.
Só no séc. IV é que, com o imperador Constantino, os cristãos se podem encontrar à luz do dia, vivendo livremente a sua fé em Cristo.
Como é que hoje podemos imitar o jovem São Sebastião, verdadeiro soldado da fé? Tendo em conta que, como nos elucida o bispo Santo Ambrósio ao falar sobre este mártir, “o pior é que os perseguidores não são só aqueles que se veem: há também os que não se vêem, e estes são muito mais numerosos (…) o diabo envia muitos servos seus a mover perseguições, não apenas no exterior, mas dentro da alma de cada um. (…) Destas perseguições foi dito: Todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus sofrem perseguição. E disse ‘todos’, não excluiu nenhum. Quem poderia na verdade ser excetuado, quando o próprio Senhor suportou os tormentos das perseguições?”
Conto uma fábula que nos pode iluminar:
A “ponte do burro”: assim definiu um bispo a experiência do Crisma para muitos dos nossos jovens. Na linguagem comum, na língua italiana, “ponte do burro” indica uma passagem particularmente difícil. Na origem desta expressão parece estar uma antiga lenda, que fala de um Santo, de um burro e do Diabo. O Santo tinha de atravessar muitas vezes uma torrente impetuosa. O Diabo ofereceu-se, então, para construir uma ponte, na condição de poder apoderar-se da alma do primeiro que a atravessasse. O Santo aceitou, e o Maligno parecia já estar a saborear a delícia de poder apoderar-se da alma do homem de Deus. Este, porém, demonstrou que era mais sábio do que o Diabo, pois, ao atravessar a ponte, mandou que passasse primeiro… o burro, que – como o Santo previra – foi poupado, porquanto não agradou ao grande Adversário!
Quantos há que, em segredo, todos os dias são mártires por seguirem a Cristo e dão testemunho do Senhor Jesus! Conheceu esse martírio aquele apóstolo e testemunha fiel de Cristo, que disse: Esta é a nossa glória e o testemunho da nossa consciência (2Cor 1,12).
E o que é que a Palavra deste 3º Domingo nos sugere? Neste ciclo do “ano B”, escutamos o Evangelho segundo Marcos (que alterna ciclicamente com Mateus, no ano A, e Lucas, no ano C). Como é costume, na Liturgia da Palavra, a primeira leitura tem sempre uma profunda ligação com o Evangelho. São Marcos começa com o grande convite de Jesus à conversão. É por isso que a Igreja escolheu para primeira leitura a Profecia de Jonas, com o convite à penitência.
Para o evangelista Marcos, para já, o mais importante é a identidade dos chamados, uma vez que a mensagem é “o anúncio do Reino e o convite à conversão” e os destinatários são toda a humanidade (“pescadores de homens”), começando-se com método, como acontece nas visitas pastorais dos senhores bispos: Jonas em Nínive, Jesus na Galileia, Paulo em Corinto apontando para a vida eterna do Reino.
EM RELAÇÃO AOS CHAMADOS: Quem são eles? O que fazem? Precisam de ter qualidades especiais? A que tipo de disponibilidade estão implicados?
“Levanta-te e vai” é o convite do Senhor a Jonas, que Ele pede que aceite antes, mesmo, de saber o conteúdo da mensagem. E Jesus aos primeiros discípulos diz “Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens” e eles deixaram tudo e seguiram Jesus. Dá a impressão que quer Jonas, quer André, Pedro, Tiago e João responderam à primeira, mas não deve ter sido assim tão simples: Jonas da primeira vez fugiu, só quando foi largado pela baleia no mar de Nínive é que se apercebeu de que não podia fugir ao Senhor. Quanto aos primeiros discípulos de Jesus, a versão de Marcos parece referir-se a um segundo chamamento, uma vez que a versão de Lucas os coloca a seguir Jesus depois da pesca milagrosa e a versão de João os coloca a seguir Jesus já no tempo de João Batista. Seja como for, o chamamento de Deus para uma missão é uma força que se repete, uma vez que tem em conta o propósito para o qual fomos criados. Não se trata de predestinacionismo, mas de uma fidelidade criativa, uma vez que a missão de Jesus é muito variada. Porém, implica uma obediência incondicional a um amor prévio também incondicional. Outro aspeto interessante, é que Jesus não exige que estejam preparados e não escolhe homens de uma esfera particularmente religiosa, mas onde vivem a vida do dia-a-dia. Não age como um rabino, uma vez que naquele tempo eram os discípulos que escolhiam o seu “rabi”. É Jesus quem chama e quem cria a decisão de O seguir. Seguir Jesus não é uma mera adesão intelectual a uma doutrina. Só se sabe que tem que ver com o Reino de Deus e que necessita a conversão. É um ato novo que brota da irrupção da graça de Deus. O seguimento de Jesus não implica discussões, mas liberdade. Trata-se de seguir o Deus que liberta e não falsos deuses que escravizam. Só a Deus é que é possível seguir cegamente; aos homens, mesmo que sejam os responsáveis das comunidades, não se “segue” (prestam um serviço em favor da comunidade). Por isso, obedecer cegamente uma pessoa que não Jesus ou Deus tem algo de sacrílego, pois implica rivalidade com Deus, e pode levar a abusos de poder, de consciência, etc. os responsáveis das comunidades são ministros, servos dos outros.
Só a partir de discípulos disponíveis é que se poderá construir um mundo onde as pessoas possam viver a liberdade religiosa, um elemento fundamental para se assegurar um tecido social harmonioso.
A palavra do ano eleita em 2023, numa iniciativa da Porto Editora, foi PROFESSOR. É significativo evocar, também, esta palavra e mais do que a palavra a pessoa dos professores, como educadores dos mais novos na busca da verdade. Também eles se levantam todos os dias a pensar no crescimento dos seus alunos, atravessados muitas vezes por contrariedades que não facilitam a sua missão. Fica aqui uma homenagem a todos os professores!

