1Sm 9, 1-4. 17-19: 10, 1a; Sl 20 (21), 2-3. 4-5. 6-7 Ev Mc 2, 13-17
A forma como tenho respondido a quem educa filhos e sofre vendo-os viver em modos ou estilos não correspondentes com a educação e a fé que lhes transmitiram é perguntando-lhes: porque haveria de ser incompatível amar incondicionalmente e, ao mesmo tempo, afirmar categoricamente que não se concorda com aquele modo de vida?
Quem sofre assim o percurso de um filho ou filha corre o risco de deixar de amar incondicionalmente, porquanto se teme que a visibilidade social e/ou eclesial daquela forma de vida faz perder a credibilidade de quem educou ou deveria educar nos valores em que se acredita e se procura defender com a prática. O sofrimento aumenta quando os pais procuraram dar bom exemplo, mas as decisões dos filhos foram noutro sentido.
Os escribas do partido dos fariseus também estavam a “sofrer” com o que estavam a ver na relação horizontal entre Jesus e os pecadores. Mas só perguntavam: “Porque motivo é que Ele come com os publicanos e pecadores?”. Não se relacionavam, porque não amavam. Afastavam-se. Ao invés, Jesus relacionava-se para os curar. Porque os amava. Jesus não deixou que a sua verticalidade prejudicasse a sua horizontalidade. Não deixou de amar a verdade do Pai ao relacionar-se com a Sua vontade: salvar amando/amar salvando.
Em Jesus, a verticalidade na defesa dos valores que ensinava era compatível com a horizontalidade na comunicação do amor, não fazendo aceção de pessoas. Uma das maiores dificuldades que hoje enfrentamos no acompanhamento das pessoas é a relação dialética entre o que as pessoas sonham e o que elas mesmas não podem mudar, que só será possível superar com um ato de fé: há um mal que Deus (por intermédio de Jesus) pode purificar perdoando (pessoal e estrutural) ─ o pecado. Mas há um bem que o ser humano só poderá alcançar querendo ─ a salvação (própria e a dos outros).
Para uma relação de comunicação saudável é precisa a chave da horizontalidade. Não basta uma relação vertical com Deus, mas, partindo dela, uma propulsão para saber relacionar-se positivamente com os outros. Jesus relacionou-se mais facilmente com os pecadores para cumprir a sua missão, porque, como diz o Papa Francisco, existe uma grande diferença entre o pecado e a corrupção: “Para o pecador há sempre esperança de redenção; para o corrupto, porém, é muito mais difícil”. O comportamento corrupto é como o aquele filho da parábola que promete que vai mas depois não comparece; enquanto que o comportamento do pecador é como o daquele filho que à primeira não responde afirmativamente, mas depois reconsidera e aparece (cf. Mt 21,28-32).
O Papa Francisco afirmou aos elementos da Cúria vaticana que só se sai dos labirintos ideológicos e rígidos olhando para cima, sublinhando que os queria enamorados e não acomodados. Foi assim que Levi-Mateus saiu daquele posto de cobrança onde estava sentado: olhando para cima, para o rosto de Jesus que passava e lhe estendia a mão para o salvar. A resposta imediata de Mateus reflete que seria um acomodado-irrequieto e no seu coração já ardia uma centelha de enamoramento pela pessoa do Mestre. A situação moral de Mateus não foi argumento suficiente para que Jesus afastasse dele o olhar. O seu amor incondicional por ele era inquestionável e foi ele que permitiu estender-lhe a mão. Foi esta verdade que levou o Santo Padre a afirmar na JMJ Lisboa 2023 que “o único momento em que é lícito olhar uma pessoa de cima para baixo: quando queremos ajudá-la a levantar-se”.
