navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

A experiência do pequeno Samuel que, ouvimos na primeira leitura, mostra-nos como a escuta da Palavra de Deus e a nossa resposta precisa de mediações humanas. Numa entrevista do Observatório Romano, o teólogo italiano Piero Coda apoia-se no n.º 8 do decreto conciliar Dei Verbum para falar dos “fatores que dinamizam o caminho do Povo de Deus que felizmente experimentamos hoje como caminho sinodal”, que traduz nestes termos:

o primeiro é o estudo da Palavra de Deus, ou seja, da sua inteligência na fé e na prática do ágape;

o segundo é a experiência da vida de fé através do ‘sensus fidei’ e dos dons do Espírito Santo;

o terceiro ponto é o magistério. Porque o magistério nada mais faz do que acolher, com o carisma da verdade e da orientação com que está capacitado para servir, os frutos trazidos pela Palavra vivida no Espírito pelo Povo de Deus.

L’OSESRVATORES ROMANO, 27 luglio 2023

Ora, para os crente, hoje, o Magistério representa o que foi a mediação do sacerdote Heli para o pequeno Samuel. A compreensão do que se estava a passar com o jovem e as instruções para uma mais adequada resposta fazem parte da missão de mediação entre o crente e o Senhor Deus. O crescimento que tem como fonte a Palavra de Deus implica caminhar de mãos dadas com um interlocutor experiente que nos ajude a posicionar bem na nossa experiência de Deus. Quando no Salmo 39 rezamos “Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade”, é porque estamos conscientes de que fazer a vontade de Deus implica escutá-l’O bem.

O Evangelho mostra-nos algo diferente da forma de João Batista direcionar. ESte apontou com o dedo e apresentou-lhes Jesus com uma definição: “Eis o Cordeiro de Deus”. E o que é que Jesus faz? Dirige-lhes uma pergunta: “Que procurais?” Depois da Ressurreição age com a mesma pedagogia com Maria Madalena: “A quem procuras?” (Jo 20,15). A nós, hoje, pergunta-nos o mesmo: “O que procurais?”. Com esta pergunta, Jesus não se dirige à nossa inteligência, mas vai mais fundo: pergunta-nos quais são os desejos dos nossos corações. Esta é uma pergunta à qual todos os seres humanos são capazes de responder, porquanto representam a busca mais profunda daquilo que nos faz viver. A todos falta qualquer coisa e a busca nasce numa ausência ou num vazio que desejamos que sejam preenchido.

E Jesus é o Mestre interpretador dos nossos desejos, projetos e esperanças. Jesus não pede àqueles dois, nem aos seguintes, nem a nós, em primeiro lugar, que façamos sacrifícios, renúncias ou penitências, não impõe que nos imolemos no altar do esforço (isto poderá vir depois para purificarmos os desejos). Primeiro, pede-nos o que é para Ele mais importante: de entrarmos nos nossos corações, de compreendê-lo, de conhecer o que desejamos mais, que coisa nos faz verdadeiramente felizes, que coisa nos move ou comove. Sem Ele nunca será possível descortinar o que desejamos verdadeiramente, para poder vir a ser possível saciar n’Ele a fome de infinito. Que procurais? Por quem caminhais? Como os Apóstolos e os Santos pode cada um responder “caminho por Um que faz feliz o coração”.

João Batista verteu água nos olhos; Jesus ateou fogo nos seus corações. A partir dessa apresentação, a relação de intimidade passa a ser entre Jesus e os seus discípulos. “Morar” e passar o “dia” com Jesus implica sair do cubículo de segurança e da mera convivência humana, respetivamente, para os passos do Caminho e para a visão da Luz. E esta morada não é um “condomínio fechado”, mas um campo aberto de relações que se multiplicam com base na capacidade de Jesus integrar os desejos de cada um numa busca que, com certeza, purifica e abra a um desígnio maior. A Pedro, Jesus dá um nome novo, que significa uma missão nova. O seguimento de Cristo transforma e leva a testemunhar a outros a Fonte da transformação.

(Abro aqui um parêntesis para a revisitação de uma conferência de Isabella Guanzini sobre “A graça do nome”, onde explora a relação entre o nome, o desejo e a falta. Convido especialmente a ouvir a partir do minuto 52.)

Na próxima semana celebramos o III Domino do Tempo Comum ou “Domingo da Palavra de Deus”. É uma iniciativa profundamente pastoral com a qual o Papa Francisco quer fazer compreender a importância da referência à Palavra de Deus na vida quotidiana da Igreja e das nossas comunidades, uma Palavra que não se limita a um livro, mas que permanece sempre vivo e se torna um sinal concreto e tangível. É preciso que a escuta e a prática da Palavra de Deus continue a ser expressão da encarnação do Verbo neste mundo. São Paulo, quando fala aos coríntios, repete muitas vezes a palavra “corpo”, incentivando a que, como membro de Cristo, se possa deixar animar pelo seu Espírito que dá vida, fugindo da imoralidades que o impedem de viver a plenitude doada por Jesus Cristo.