navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

1Sm 3, 1-10. 19-20; Sl 39 (40), 2 e 5. 7-8a. 8b-9. 10-11 Ev Mc 1, 29-39; Comentário inspirado em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

A cura da sogra de Simão por parte de Jesus, conforme é descrita com procedimentos tão comuns ─ aproximação, tomar pela mão, levantar ─ parece-nos tão trivial. No entanto, para a época, tem caraterísticas absolutamente novas: um rabino nunca se deveria aproximar de uma mulher para a tomar pela mão, para lhe devolver a saúde; um rabino nunca deveria aceitar que uma mulher o servisse. Jesus não só põe em causa estas regras rabínicas, mas inverte todos os princípios das relações sociais, conferindo ao “serviço” um novo estilo e um novo conteúdo.

Sabe-se que há fatores de risco que podem levar uma pessoa a ser mais facilmente vulnerável à febre, ligados ao estado de saúde, à idade, a certas profissões, ao uso de certos medicamentos e procedimentos médicos, e à exposição a infeções. A febre aumenta ou diminui na medida que o seu setpoint (que pode ir de 36,5 a 38 graus) for tremendamente influenciado por fatores internos ou externos no que toca à temperatura do corpo. Penso que em relação ao serviço, também há “febres” espirituais que não deixam servir conveniente, com as motivações não verdadeiramente evangelizadas, por excesso ou por defeito.

Com o tema do serviço passa-se uma coisa semelhante: Jesus aprendeu o conceito de serviço decorrente do preceito do amor ao próximo já presente no Antigo Testamento. Foi aí que Jesus o encontrou, juntando-lhe o preceito do amor a Deus e propondo-o como elemento central da atitude moral exigida por Deus ao homem. Com isto, Jesus reformula o conceito de serviço libertando-o das alterações de que tinha sido objeto no judaísmo tardio que, com as influências helenistas, se desvia com o tom de “domínio”. A diakonia era mal vista pelos gregos, pois, dominar, não servir, era o que caraterizava um ser humano. Para o grego, o objetivo da vida humana era o perfeito desenvolvimento da própria personalidade; por conseguinte, era-lhe estranho qualquer sentido de serviço ao próximo.

O que se passa nesta cena do Evangelho é que Jesus coloca o setpoint das motivações do serviço no seu devido lugar, fugindo aos perigos extremos do mero domínio e do mero assistencialismo. O que acontece nesta cena é que Jesus dá uma reviravolta na atitude para com uma pessoa concreta doente, sem se deixar fixar em detritos religiosos ou respeitos humanos mantidos por uma lei caduca, deixando-nos prefigurada, entre a sinagoga e a casa de Pedro, aquela que é a relação entre a celebração comunitária da fé e a prática da caridade, entre a pastoral profética e a pastoral sócio-caritativa. Jesus serviu a sogra de Pedro para que ela voltasse a viver a dignidade do serviço.

A partir de Jesus, é possível ver o Papa a lavar os pés aos presos, mesmo diante da opinião de quem preferisse que este rito ficasse simbolicamente fechado dentro da Liturgia, num dia tão importante como o de Quinta-feira Santa. Por fim, «o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir» (Lc 10,45). Jesus, na sua apreciação moral, inverteu a relação entre «servir» e «ser servido». Para os servos atentos será, pois, uma enorme honra que o senhor, ao voltar da casa, os recompense fazendo-os sentar à mesa e servindo-os ele próprio (cf. Lc 12,37).

No final, poderíamos ainda pensar que Jesus poderia gabar-se ou deixar-se elogiar pelos sucessos da nova doutrina, mas não: afasta-se para estar a sós com Deus, para não se deixar ficar a celebrar glórias, a não ser a de continuar a dar-Se sem demora no ”serviço de urgências” da Boa Nova ao mesmo tempo falada e praticada. Ele ensina-nos que é o serviço itinerante que nos livra de ficar em casa doentes com aquelas ideologias das quais só Ele, pela sua Palavra e os Sacramentos, nos poderá tirar a “febre”.

Acontece-nos na relação com o serviço o que aconteceu na escuta da Palavra por Samuel: Deus já o estava a chamar em vários momentos, mas ele ainda não estava preparado para escutar. Só quando o sacerdote Heli o instruiu a responder devidamente ao Senhor é que ele deixou de se enganar no destinatário. Assim, com o serviço, acontece haver várias intermitências até chegarmos a amar devidamente através dele, por um amor que signifique mesmo querer o bem do outro e não o próprio bem, por vezes, apoiado em outros interesses que não os do destinatário do bem. O ideal cristão implica a concomitância ou subsidiaridade entre a escuta da Palavra e a prática do bem. É para isso que passamos pela Liturgia!