Is 60, 1-6; Sl 71 (72), 2. 7-8. 10-11. 12-13 L 2 Ef 3, 2-3a. 5-6 Ev Mt 2, 1-12 ─ na Epifania do Senhor
No filme francês “Qui a envie d’être aimé?“, de Anne Giafferi (2011), o protagonista principal é convidado por um diretor de turma do filho a participar num grupo de catecumenado. Entra ali por “educação” e sai com “comoção”. Aquele homem que do ponto de vista profissional (advogado) não perdia causas, em sua casa não era capaz de impedir que a rigidez com que tinha sido educado pelo pai danificasse a sua relação com o filho. No final, será a comoção por se saber amado por Jesus Cristo Deus-humanado que o ajuda a acabar com a hereditariedade do mal que o levava a exercer um autoritarismo ineficaz na educação do seu próprio filho.
Assim eram os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo que Herodes mandou reunir para se certificar de tudo o que a Escritura dizia acerca do nascimento do Messias. No entanto, não era o facto de estarem bem informados que os levava a moverem-se ao encontro do Messias. Pelo contrário. Bastava-lhes Herodes para o seu status quo. Como avisou o Papa Francisco aos elementos da Cúria vaticana neste Natal, há sempre o perigo de viver acomodados ou habituados num labirinto, onde a rigidez de certos cânones os pode impedir de viver enamorados. Ele diz: é preferível enamorados do que acostumados!
Os magos, por sua vez, eram sábios porque movidos por um desejo. É a sabedoria do coração que está atenta à estrela ─ hoje diremos os “sinais dos tempos” ─ que se move e nos co-move, orientando-nos para o encontro. Mais tarde Jesus dirá “Onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão os abutres” (Mt 24,28). Mas agora, sem palavras, inspira-nos a dizer que onde nasce a esperança ali se juntará os desejos.
No Evangelho da Epifania é evidente o cruzamento entre o “onde” e o “quando” para o regresso ao palácio de Herodes. No entanto, a equação esperança-desejo faz com que do encontro com o Menino Deus derive um outro caminho, informado pelo céu e não pela terra. A vocação de Jerusalém, “vista” por Isaías, é anunciada ser o grande no acolhimento de todos os povos; no entanto, só por um desvio de perspetiva é que isso será possível. Para já, no tempo atual, pode ser o destino da vocação de muitos dos que queiram promover a paz. Paulo garante-nos que essa paz é herança comum entre judeus e gentios. Porquê a guerra? O porquê não sei bem, mas que tem que ver com a falta de encontro com Deus quer leva ao regresso aos “palácios” herodianos atuais tem!
Há quem diga que os tesouros que os Magos ofereceram ao Menino ─ o ouro, o incenso e a mirra ─ significam, respetivamente, a sua realeza, a sua divindade e a sua humanidade. Hoje, proponho que os tesouros que podemos oferecer ao Menino Deus, numa perspetiva de conversão, quer dizer, de sairmos daqui por outro caminho, seriam (cf. BERNARD LONERGAN, Il metodo in teologia):
1) A conversão intelectual, que permite alcançar a comunhão a partir de uma consonância de mentalidades. A conversão intelectual conduz a um esclarecimento radical no plano do conhecimento, abre à verdade, desenvolvendo em cada pessoa a capacidade para o realismo crítico. Daquilo que “me parece” pelos sentidos, passa-se à observação mais objetiva da realidade, daquilo que “é em si mesmo.
2) A conversão moral, que permite o darmo-nos as mãos a partir de procedimentos comuns de participação. A conversão moral modifica o critério das próprias escolhas: do que é ditado pelas próprias satisfações passa-se a agir segundo o critério dos valores morais objetivos e transcendentes, últimos pontos de referência diante dos quais cada um é chamado a conformar-se para garantir a descoberta da sua autenticidade. Garante uma autocrítica diante dos próprios conhecimentos, das próprias intenções e ações em ordem aos valores.
3) A conversão religiosa, que permite viver a missão a partir de uma ancoragem cada vez mais consistente no amor de Deus que nos assiste continuamente, graça sempre suficiente. A conversão religiosa consiste em «ser presos por aquilo que nos toca absolutamente. É enamorar-se de forma ultramundana. É entregar-se totalmente e para sempre sem condições, restrições, reservas». Este entregar-se é um estado dinâmico e não um ato simples. Manifesta-se na consciência existencial através da aceitação estabelecida de uma vocação específica à santidade (não meramente as tradicionais vocações de especial consagração, mas caminhos concretos de superação, resiliência e entrega no serviço). Não há, por assim dizer, fim para esta conversão, ilimitados como são o dom de Deus e a inquietude do homem crente.
Portanto, mais do que ficarmos apegados aos aspetos externos desta solenidade, é importante atermo-nos ao seu significado: a grande manifestação do Senhor ou a grande manifestação de Deus à humanidade, a partir de uma estrela diferente que nem todos parecem notar. Muitos a veem, mas apenas os verdadeiros sábios a reconhecem com a estrela do Messias e deixam-se mover por ela, comovendo-se com os seus desígnios de salvação universal. Para isso, não basta ter informações na cabeça; é preciso que sejam boas informações e que os critérios das próprias escolhas se deixem orientar por elas; só assim é que o coração servirá de motor para o bem.
Defender a ortodoxia (doutrina reta) é bem, mas não basta! Cumprir a doutrina (ortopráxis) é bem, mas não basta! A sintonia ou convergência entre estas duas, tem de levar à ortopatia, quer-se dizer: a sentir-se bem, quer dizer, estar bem disposto no seguimento do Senhor).
Como os Magos, muitos homens e mulheres de humanidades e das ciências, de muitas latitudes do ser e do saber, podem não ter conhecimento profundo de toda a doutrina, mas trazer impresso no coração o desejo de reconhecer algo muito maior, que tem que ver com a salvação de toda a humanidade (e não meramente parte dela, como alguns grupos querem defender).
Segundo o Papa Francisco, no Ângelus da Epifania de 2023, os Magos não são só famosos por terem dado ao Menino três tesouros, mas acima de tudo também receberam três dons:
1) O dom do chamamento que receberam no meio das suas buscas ou afazeres, abertos ao que não conheciam, sentindo-se chamados a andarem mais além e saindo das suas comodidades, porque Deus chama em cada dia. Os Magos representam todos os que buscam uma mão amiga, quando perdidos numa vida sem sentido de infinito.
2) O dom do discernimento entre o palácio do rei Herodes e os sinais que Deus continua a mandar, entre as tentações do caminho e a meta do caminho (devemos pedir esta graça do discernimento na oração); adoramos a Deus que vem na pequenez ou procuramo-l’O em coisas extraordinárias? Os sacerdotes, escribas e o rei Herodes estavam encerrados nos perímetros em que a vida se vai apagando, sem sentido de infinito.
3) O dom da surpresa: uma cena de ternura, o Deus que se manifesta na pobreza (sem anjos como aos pastores…), não um Messias que se apresenta com super-poderes, mas humanado. Humanamente, nós estamos inclinados a encontrar Deus na grandeza, mas Ele convida-nos a encontrá-l’O na pequenez de um concreto amor infinito. Deus é assim: Menino, confiado, simples, amante da vida, sonhador. Por isso, temos de olhar mais os pequeninos, pois neles se esconde a luz da estrela de Belém, que é “casa do pão”.
