Is 35, 1-10; Lc 5, 17-26
Contra as perspetivas veterotestamentárias sobre o pecado e o perdão ─ [1ª] sacerdotal (que impunha a purificação ritual), [2ª] profética (que impunha a mudança de comportamento) e [3ª] apocalíptica (que mandava aguardar o juízo do Deus longínquo) ─ Jesus Cristo oferece o perdão aos perdidos, de uma forma inusitada e controversa. Jesus é o rosto que aproxima do Mistério de Deus, ao passo que aquelas perspetivas humanas não passam de tentativas, mantendo as pessoas presas a um enigma. Podemos dizer sem medo que diante do mistério temos dificuldade em ver por causa do excesso de luz que nele está presente; ao passo que no enigma não vemos por excesso de obscuridade. A visão gradual da luz só liberta, ao passo que com a obscuridade só se manipula. As palavras e os gestos de Jesus causavam admiração, não confusão, ao passo que as atitudes dos escribas e dos fariseus afastavam da luz.
Essa palavra [a de Jesus] é, antes de mais, um gesto de revelação teológica: Deus não é a pureza ritual, nem o juiz rigoroso, nem o Senhor longínquo que prepara a vingança da história; é o amigo que oferece a todos a sua amizade; por isso perdoa sem pedir nada em troca. Essa mesma declaração possui também um conteúdo cristológico (é Jesus quem atualiza e oferece o perdão de Deus) e eclesiológico (o Filho do homem continua a perdoar no seio da Igreja).
VV.AA. Comentáros à Bíblia Litúrgica, 1078.
Jesus realiza um sinal que acompanha a declaração do perdão dos pecados: cura a doença do paralítico. Isto sugere que a atividade taumatúrgica de Jesus sobre o amor aos necessitados e a cura dos doentes se converte num sinal que garante a verdade do perdão que Deus oferece. Para o serviço reconciliador da Igreja, esta relação entre perdão e cura sugere a que o amor entre os cristãos, formando comunidades autênticas, será sinal de uma verdadeira reconciliação com Deus, ou seja, da pretensão de obter d’Ele o perdão dos pecados. Daqui se ressalta, também, que a Reconciliação Sacramental implica não só o ritual, mas também a realização de gestos que concretizem o Dom que se recebe de Deus na relação com os irmãos. Prova do que se está a dizer é são as declarações que Jesus fez em várias passagens do Evangelho e que encontram sintetizadas na oração comunitária do Pai-nosso: perdoa-nos as nossas ofensas, como também nós perdoamos a quem nos tem ofendido (Mt 6,12; Lc 11,4; cf. Mc 11,25).
O processo litúrgico que nos leva do Advento ao Natal tem de ser para os cristãos o encher do “reservatório” da alegria que possa transbordar para os outros. Se não for assim, pode ser que a nossa alegria seja insultuosa para os outros. Deus não faz bem a uns por serem melhores que os outros. Deus convida a irmos até Ele para nos endereçar ao encontro dos irmãos. A espiritualidade cristã não tem outro sentido, senão este único. No espírito da espera e vinda de Cristo, a alegria do Natal ou é transbordante/inclusiva ou é hipócrita.
