navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Is 40, 1-5. 9-11; 2Pd 3, 8-14; Mc 1, 1-8

No 1º Domingo do Advento, fomos agraciados com a possibilidade de vermos refeita a nossa vida pelo amor incondicional de Deus, o divino “oleiro” que tem o poder de voltar a moldar o nosso frágil barro, assim nós nos apresentemos diante d’Ele com humildade. Para isso, serve a vigilância, de modo a vermos onde estão as “fissuras”, os “buracos” ou as imperfeições que podem deitar a perder a graça que é preciso transportar na vida e para os outros. Na Solenidade da Imaculada Conceição, percebemos que a Deus nada é impossível. O que Ele quer realizar em favor da humanidade não conhece limite algum. O Espírito Santo é uma cascata de amor que ninguém pode parar. Maria é testemunha disso.

Neste 2º Domingo do Advento, está diante de nós o caminho que nos leva ao encontro com Jesus. Como nos sugere uma imagem de Agustin De La Torre, no Advento, todas as nossas metas devem ser a saída. Que caminho é este? E como estar/ir “em saída”?

Em primeiro lugar, somos convidados a considerar que no início do caminho está uma promessa: Jesus vem! É a voz do profeta que O anuncia e que o precursor ajuda a preparar. O início do caminho apresenta-se, como em Maria, uma semente que se quer tornar árvore grande. O infinito que se quer tornar corpo para que a nossa vida se torne corpo. A espiritualidade cristã não é tanto a espiritualização do corpo, mas a encarnação do espírito. O que podemos perguntar é: como incarná-l’O hoje? É o que nos diz o testemunho de João Batista, que não cuidava tanto com que vestir e com que comer, pautando-se pela simplicidade, mas mais com que anunciar: o amor incondicional de Deus que nos vem salvar.

Em segundo lugar, é-nos aconselhado de que forma é que podemos estar melhor no caminho: somos convidados a estar humildes, como João Batista, mas de cabeça erguida e livres, porque sabemos qual é o horizonte para o qual ele nos leva: a Vida nova que o Senhor nos traz.

Em terceiro lugar, há uma tarefa a fazer no caminho com que esperamos e se realiza a vinda do Senhor: endireitar as suas veredas, altear os vales e rebaixar os montes. O que nos está a ser dito por esta Liturgia, é que se faça justiça, não seguindo a lógica humana, mas a lógica de Deus que manda anunciara a consolação aos aflitos.

Neste dia 10 de dezembro, celebra-se no calendário civil 75º aniversário da proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pelas Nações Unidas. Foi em 1948, mas permanece por cumprir, também em Portugal. Infelizmente, ainda existe quem se aproveite da pobreza, da fragilidade e da miséria de muitas pessoas. Ainda há muitas pessoas (e infelizmente sempre haverá) que aguardam se contempladas no respeito para com a sua dignidade, incluindo a liberdade religiosa.

É curioso notarmos que os países em guerra quase sempre são lugares onde não se pode ser livre na escolha e vivência da religião. O Papa Francisco, por várias vezes, já advertiu os líderes religiosos e os chefes das nações de que as questões religiosas jamais podem ser justificação para as guerras, pelo contrário. A vivência da religião pode ser uma grande força para a paz, porque Deus é o Deus só da paz, não é o Deus da guerra, e quem apoia a violência profana seu nome. O que acontece é que, muitas vezes, os interesses económicos e políticos, fugindo da ética, se mascaram com o argumento religioso, muitas vezes substituindo o próprio Deus.

A presidente do Centro de Reflexão Cristã reflete, neste dia, admite que

algumas pessoas apresentem reservas perante a ajuda concedida a quem chega de outros países, mas pede abertura para entender que isto não é uma competição de desgraças ou de quem precisa mais. O contrário da indiferença é a comoção, e a comoção é um sinal de esperança.

Então, duas formas com que podemos endireitar o caminho para o Senhor passar são:

1) A nossa própria conversão: rebaixar os montes com a humildade. Pensar pela própria cabeça sem populismos que deitem a perder a força que os antepassados nos transmitiram, em favor de uma Sociedade e Igreja mais acolhedoras e integradoras das pessoas em dificuldade. No fundo, abrir a mente e o coração para acolher.

2) Altear as veredas, quer dizer, dar a mão ao irmão ou irmã que sofre ou que está caído. O Papa Francisco disse em Lisboa, na JMJ, que só é lícito olharmos de cima e dar a mão a alguém que estejam caído se for para o ajudar a levantar-se. Na verdade, à nossa porta Cristo pode bater sempre através de um pobre ou desalojado.