navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Is 25, 6-10a; Sl 22 (23), 1-3a. 3b-4. 5. 6 Ev Mt 15, 29-37

O milagre da multiplicação dos pães aparece duas vezes em Mateus e Marcos, e uma vez em Lucas e João. Todos os relatos partilham da evidência da chegada dos tempos messiânicos e que, para além das curas, o Messias tinha de satisfazer todas as necessidades.

As curas físicas andam sempre associadas à satisfação das necessidades básicas do ser humano. É o que nos prova a controvérsia das guerras atuais, que ameaçam matar mais gente por causa da fome e por falta dos bens essenciais, do que pelas próprias armas.

A grande diferença entre os dois relatos do milagre da multiplicação dos pães é o que a que se refere aos destinatários: a primeira refere-se à Galileia dos judeus e o segundo insinuando-se à Galileia dos gentios e em benefício destes. Também a eles se anuncia a chegada da plenitude dos tempos. Ali aparece a expressão “Todos comeram”, semelhante à que o Santo Padre repetiu na Jornada Mundial da Juventude.

O encontro aconteceu no monte, onde a multidão se foi encontrar com Jesus. Tenhamos presente que Jesus não chamou ao cimo do monte só os discípulos, mas também atraiu para ali as multidões! O monte é lugar de solidão e de revelação. E se como “cimo” da formação aos apóstolos ali nasce a missão, como “cimo” da saciação e cura ali Se revela nos seus desígnios de amor universal.

A caridade em saída inicia muitas vezes em decisões solitárias e corajosas, como aconteceu com Jesus e hoje em dia, com muitos pastores e missionários da caridade. O banquete que Jesus anuncia, contrariamente ao que os judeus pudessem pensar e gostar, é para todos.

O que é que este episódio pode ensinar às comunidades da Igreja? Para já, salta-me à vista o seguinte: que a caridade, para não ter que ficar a dever à solidariedade, terá de ser gratuita e universal, porque vem da “despensa” dos dons de Deus e não é mera partilha de bens materiais (ainda que também estes, próxima ou remotamente, tendo origem em Deus). A caridade não pode discriminar nem pela diferença racial ou religiosa, nem pela classe social. Neste sentido, caridade e solidariedade terão de ser recíprocas, para atingirem o ser humano na sua total dignidade.

O que dá origem ao milagre da multiplicação dos pães é o encontro entre a compaixão de Jesus e o desfalecimento da multidão por causa da fome. Ora, é muitas vezes em situação de desfalecimento físico, psicológico ou espiritual que as pessoas podem correr o risco de se perder numa vida menos digna, como aquelas três moças que estavam para ser enviadas pelo próprio pai para a prostituição, num momento de desespero por vez a sua fiança arruinada, por causa da extrema pobreza em que se encontrava. Não tendo recursos para as sustentar, deitava a perder o seu futuro. Conta a lenda que São Nicolau (Turquia, século III d.C.) jogou três sacos de moedas de ouro pela chaminé da casa da família e os sacos caíram em cima das meias das moças, que tinham sido colocadas na lareira para secar.

Diferenças com o Pai Natal? Não a que se referem aos destinatários ─ que tanto podem ser crentes como descrentes ─ porque a extrema pobreza pode acontecer a todos, seja em que circunstâncias estiverem. A grande diferença é se o que se partilha é o que sobra (no caro dos meros presentes) ou o que Deus nos manda dar (no caso da caridade, com o desprendimento dos bens por razões espirituais ─ a salvação da alma!).

Se formos a analisar a dimensão numérica nos relatos da multiplicação dos pães, no que se refere à que beneficiou os judeus sobraram 12 cestos e na que beneficiou os gentios sobraram sete. Naqueles doze a tradição viu sempre os apóstolos e nos sete vê os primeiros diáconos. Aos cinco mil judeus saciados e em processo de discipulado Jesus enviou os doze apóstolos e aos quatro mil gentios em processo de conversão Jesus fundou aqueles que a Igreja enviou mais tarde como diáconos.

Em conclusão: Jesus não pediu contas a ninguém, a não ser ao Pai, no cimo do monte, para, a partir dali, enviar os que quis aos destinatários que quis. A Igreja foi e é sempre convidada a multiplicar-se em agentes e destinatários diferenciados, diante da diversidade de problemas. Grande prova disso são as nossas obras e instituições eclesiais de beneficência dos pobres, para além da responsabilidade da dimensão hierárquica. É exemplo, também, eloquente o das congregações religiosas Ad gentes, onde a Evangelização pactuou e foi sempre precedida da inculturação feita de alfabetização e alimentação. Tudo a revelar a compaixão de Deus que a todos socorre.

O Advento coloca-nos no caminho das boas obras, pelas quais a Liturgia nos convida a preparar a vinda do Senhor. Nos primórdios do Evangelho, catalogavam-se aquelas doenças ─ coxos, aleijados, cegos, mudos e muitos outros. Hoje a ciência ajuda-nos a diagnosticar muitas mais, não só no foro físico, mas também nas dimensões psicológica e espiritual. Precisamos, mais do que oferecer presentes, de nos fazermos presentes na vida das pessoas, dando-lhes a mão.