Tenho-me visto a peregrinar no espaço público e a entrar em estabelecimentos comerciais, contemplando os enfeites e luzes com que se ambiente a quadra do Natal que se aproxima. Metodologicamente, ponho-me à procura de uma pequenina imagem do Menino Jesus que seja ou da Sagrada Família, para o caso de alguém a possa comprar para colocar na “despensa” para a preparação do Natal. Mais do que estas imagens, encontrei ursinhos e enfeites de neve diversos, que não dispensam a estrela, talvez a acordar-me para o tema das circunstâncias climáticas que estão a ser alvo do COP28 no Dubai. Não lamentei nem lamento este facto. (Também não fui direto às lojas eclesiásticas onde há presépios à venda!) Mas perguntei-me: não será que não se trata tanto de eu encontrar os sinais do Natal freneticamente, mas de acolher a provocação que é ─ como posso ser eu sinal do Senhor que quer vir novamente ao encontro da humanidade? Hoje em dia, nas igrejas, também tendemos pedagogicamente a colocar as imagens gradualmente e não todas de uma vez. Na verdade, encenar o Natal não pode ser meramente o pôr e tirar imagens, mas gerar ambiente que me leve a focalizar a objetiva do meu olhar naqueles “presépios” que estão visíveis durante todo o ano.
A aparente ausência dos sinais de Jesus no espaço e ritmo sociais, ainda que também haja comércios de imagens religiosas, são um desafio para uma maior “desprivatização” da experiência que fazemos da Sua presença real na Eucaristia. O culto público da Igreja não é meramente para que venha ao templo quem quer livremente entrar, mas também um desafio a traduzir o que no templo experimentamos no encontro com o Senhor em gestos concretos. Não podemos sair da Eucaristia a teorizar, mas a concretizar. A Missa não é o resultado de uma teoria, mas um encontro com Deus a partir da nossa corporeidade, para que saiamos daqui reunificados como corpo e espírito (não há Sacramento sem forma e matéria, sem espírito incarnado). A imitação dos sentimentos de Jesus pode ajudar-nos a “desprivatizar” a experiência que aqui fazemos, através da alegria, da mansidão, da escuta, das boas obras… ao encontro dos “corações-estábulo” onde Ele quer continuamente (re)nascer.
No tempo em que vivemos, pode haver quem reze como o profeta Isaías profetizava oito séculos antes de Cristo (traduzindo para uma linguagem atual): Oh, Senhor, porque deixais que os homens andem em guerras, porque permites que aconteça a corrupção? Oh se aparecesses aqui novamente em corpo e alma! Estremecia quem Te visse. Mas tu vieste e e não passaste despercebido. Nunca ninguém foi tão próximo como vós, nunca ninguém ouviu, nem viu o que fizeste em favor da humanidade. Mas nós somos pecadores, barro frágil. Vós, porém, sois o nosso Pai, o nosso oleiro que nos quereis refazer em vossas mãos. E Ele precisa das nossas mãos para que Ele possa renascer na vida de outros.
O profeta tem consciência de que somos “terra ferida” que logo se pode tornar “terra curada” e que é sempre possível crescer. Para isso, é preciso, de algum modo, interromper o ritmo e a forma de ver a realidade. Deixar que se abra uma brecha no meio dos montes de preocupações e de coisas, para que Deus possa reentrar na nossa vida. Mas para isso, teremos de superar três tipos de crises: de confiança, de futuro e sobre a capacidade de gerar. Com a expressão “Oh se rasgásseis os céus e descêsseis” o profeta imagina que os céus estão grávidos e podem “dar à luz” o Salvador. E acredita que Deus pode tornar-se um corpo para que a nossa esperança tome corpo.
É curioso que na dinâmica de Advento da Arquidiocese de Braga que hoje iniciámos se tenha proposto um testemunho de vida: o de Daniel Faria, com a palavra “Silêncio”. Podemos ler ou ouvir nos testemunhos a seu respeito:
Daniel Faria foi uma criança muito obediente e preocupada com os outros. Uma pessoa com a simplicidade de criança, mas com uma sabedoria de génio. Vivia um pouco de distância, de modo que a realidade dele parecia um pouco depois da realidade de toda a gente. Uma densidade, uma sabedoria que era fascinante. Fazia-nos crer que quem vive em Deus, comunica Deus. Era muito discreto e muito tímido, mas também muito presente. A sua forme de ser pessoa, o seu silêncio, a sua pausa em colocar as palavras. O Daniel era um poeta, provavelmente um dos místicos portugueses mais importantes.
Testemunhos
Ora, iniciar o Advento é um convite a não nos agarrarmos tanto às expetativas humanas (que são sempre limitadas ou exageradas), quanto à esperança que nos é infundida pelo Deus que nos ama e nos chama a viver como irmãos. Na experiência de Advento-Natal, a Liturgia comprova-nos que a encarnação do Verbo de Deus infunde uma esperança que excede todas as expetativas.
Creio que o mais egoísta dos homens é aquele que recusa dar aos outros a sua fragilidade e as suas limitações.
Daniel Faria
Dizer “irmão” e “irmã” é a expressão que transforma a sociedade mais do que uma fraternidade abstrata; e só o louvor é que, desde a nossa vulnerabilidade, nos ajuda a reconhecer a rede de relações entre todos. O louvor ativa em nós o olhar transparente para os outros. Vigiar é tornar-me irmão com mansidão, abrindo-me ao exercício do cuidar, comprometendo-me com o que é preciso fazer. (cf. Comentário à liturgia do 1º Domingo do Advento – Ano B).
Na oração chamada “Colecta” intuímos que as boas obras sejam como que “poldras” num riacho para podermos passar e ir ao encontro de Cristo. Já que a sociedade “vende” o Natal, as comunidades da Igreja são chamadas a acolhê-lo de graça e a dá-lo de graça. Cada pessoa ou instituição gere como quer ou como pode a dinâmica da oferta e da procura; precisamos de decidir, como cristãos, como gerir a gratuidade que pode dar consistência à nossa experiência de viver em Deus e de o doarmos aos outros.
Estamos envolvidos numa mudança de era (e não só de época), convidados a redescobrir Deus através do mistério da corporeidade, através da capacidade da imaginação diante da realidade da vida quotidiana, no encontro entre o Evangelho e o mundo. Para que a incarnação de Jesus tenha boas consequências na e a partir das nossas vidas, precisamos de incarnar plenamente em nós mesmos. Já pensámos que o que Jesus quis assumir para estar connosco, nós já o somos: corpo e sangue? Quantos seres humanos têm consciência da sua afinidade com Deus através da existência física? Quanto da nossa espiritualidade é relacionada com a nossa existência física? O ser humano não pode conhecer a Deus se não for plenamente reunificado: corpo e espírito ─ como Jesus nos Sacramentos: forma e matéria; palavra e rito.
A Arquidiocese de Braga propôs, a partir deste fim-de-semana, na 2ª assembleia sinodal arquidiocesana, em Caxinas-Póvoa de Varzim, um plano pastoral com que se inicia neste Advento um grande caminho de natureza sinodal sob o tema “Juntos no caminho de Páscoa, Levar Jesus a todos e todos a Jesus”, que culminará na Páscoa de 2033, ano da grande celebração dos dois mil anos da Ressurreição de Cristo. À luz do Espírito Santo, falar com liberdade e escutar com humildade, ajuda à construção daquela consonância de mentalidades que possibilita viver a comunhão.
Aqueles que anunciam que lutam a favor de Deus são sempre os homens menos pacíficos da terra. Como creem receber mensagens celestiais, têm os ouvidos surdos a qualquer palavra de humanidade.
Stefan Zweig
A partir do Evangelho de hoje, e em cada um dos seus versículos, proponho respondermos a cada desafio que o Senhor nos propõe, a partir de cinco dimensões:
1ª dimensão: a Surpresa (cf. Mt 13,33) ─ Como estar diante daquele momento desconhecido? Podemos responder com a pobreza.
2ª dimensão: a Tarefa (cf. Mt 13,34) ─ Como exercer a autoridade que nos é dada pelo Senhor que partiu e virá? Podemos responder com a castidade.
3ª dimensão: o Ritmo (cf. Mt 13,35) ─ Como viver a oferta incondicional da vida a todas as horas do dia e da vida? Podemos responder coma obediência.
4ª dimensão: o Sono (cf. Mt 13,36) ─ Qual é a “costura” que é capaz de entrelaçar a o descanso que revigora o corpo e a atenção que desperta o espírito? Podemos responder com a oração.
5ª dimensão: a Vigilância (cf. Mt 13,37) ─ Como entendê-la e vivê-la sempre como Jesus a diz: no plural “a todos”? Podemos responder com a comunidade fraterna.

