2Mac 6, 18-31; Lc 19, 1-10
As pessoas que só veem números vivem, habitualmente, atrás de ecrãs de computador, fechadas em escritórios. Como Zaqueu, precisam de subir às árvores, de onde se pode olhar para o panorama da humanidade por outro prisma. Para que a sua fé se possa tornar patente, precisam de se perder numa forma curiosa de existir
Jesus, contra todas as regras, pede a Zaqueu que O convide para comer em sua casa. Jesus não precisa que Zaqueu já esteja dentro do seu “Caminho” para Se fazer hóspede. Olhou só para a sua miséria e curiosidade. E salvou-o! De facto, como se conclui da reflexão acontecida na XXXVI Assembleia Geral da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal, na Igreja precisa-se de gerar novos processos de acompanhamento que não descartem aqueles que parecem ser irrelevantes.
Precisamos de visitar mais as pessoas, não só por causa das suas qualidades humanas ─ que nos podem ajudar a crer como são boas ─, mas também e sobretudo por causa das suas misérias ─ diante das quais podemos ser levados a crer como Deus é bom. Só assim é que, profundamente, poderão realizar-se “visitas pascais”. Ali é importante levarmos Jesus, não só por uma doutrina declarada, mas também e sobretudo, por uma forma essencial de viver a fé. Na verdade, na vida da fé, não é só o dinheiro a mais que atrapalha a missão, mas o desnível social que a desqualifica. Por isso é que em cada ano litúrgico precisamos de começar pelo Advento, onde a oração “Maranathá” se combina com a aplanagem dos caminhos, para que o Senhor possa vir e passar.
Se a irrepreensibilidade dos que vivem há mais tempo e com mais maturidade a fé se colocar no caminho ─ como Jesus que andava no caminho, como Eleazar no testemunho público aos mais novos ─ certamente a curiosidade de alguns levará àquela hospitalidade que possibilita um olhar novo que leva a não afastar o olhar dos pobres.
A cantora Sara Tavares (1978-2023) parece-me ser uma bela síntese existencial entre o respeito para com os antepassados e o gosto de viver. Para ela, a “fotografia” da felicidade precisa do outro para ser tirada e reconhecida. Soube reter o carinho e o olhar das pessoas. Falava com Deus. Cantava Deus (“Só Deus sabe o que virá“), sem revolta, mesmo no meio de problemas de saúde que lhe podiam prejudicar a fala. Sentia que a alma transcende e a matéria perece, que vamos ficando velhos e gastos, mas o fogo da alma continua (cf. Expresso). Poderíamos dizer, à luz do Evangelho do XXXIII domingo do tempo comum (ano A), que pôs a render o talento que Deus lhe deu. Ela mesma diz que a música a “salvou”. Acreditava em Jesus Cristo, falava d’Ele sobre o amor incondicional e a liberdade pessoal. O que disse gostar e não gostar ajuda-nos a ler, nas entrelinhas de uma história familiar e artística, uma humilde assertividade quanto aos valores do Evangelho. (A entrevista abaixo, publicada no Expresso On-line, poderá ajudar a elucidar sobre este testemunho de vida.)
Hoje rezo para que a pastoral juvenil e vocacional da Igreja não olhe (só) para números, mas coloque os seus agentes na estrada, onde a curiosidade da busca de muitos jovens possa ser um “cartão de visita” para a hospitalidade de um desígnio de salvação que parte da consciência do amor incondicional de Deus em diálogo com aquilo que cada um pode ser e dar em resposta a esse amor.
