navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

1Mac 1,10-15.41-43.54-57.62-64; Lc 18, 35-43

Não é estranho ao nosso pensamento vulgar a afirmação de que é distanciando-nos das realidades que nos são mais queridas que as conhecemos melhor e lhe costumamos dar ainda mais apreço; apreciamos melhor as pessoas que amamos quando não estamos perto delas durante muito tempo; o mesmo acontece com as nossas terras.

O cego de Jericó ouve falar de Jesus e pressente imediatamente ─ a perceber pelo grito insistente ─ Jesus o Nazareno como aquele já já tinha sido anunicado como “Filho de David”. Na memória, Jesus é para ele mais Caminho do que para muitos do que pisam a terra daquele tempo e espaço. O grito dele à beira do caminho é mais profissão de fé do que a repreensão dos que estão dentro do caminho. Afinal, quem está dentro, quem está do lado de fora? Quem habita, quem é marginal? Aquele cego está a ver a plenitude, enquanto que os que repreendem só estão a olhar para o limite. Os que o repreendem tendem a ser obsessivos pelos (bons) resultados, o cego aguarda com esperança que se abra à sua frente um novo horizonte. Ao aceitar ser discípulo, almeja a plenitude e não meramente o sucesso do momento. O testemunho vocacional deste discípulo de Jericó prova-nos que «a memória» do que já não se vê «é superior ao espaço» que agora só alguns veem.

Existe uma tensão bipolar entre a plenitude e o limite. A plenitude gera a vontade de possuir tudo, e o limite é o muro que nos aparece pela frente. O «tempo», considerado em sentido amplo, faz referimento à plenitude como expressão do horizonte que se abre diante de nós, e o momento é expressão do limite que se vive num espaço circunscrito. Os cidadãos vivem em tensão entre a conjuntura do momento e a luz do tempo, do horizonte maior, da utopia que nos abre ao futuro como causa final que atrai. Daqui surge um primeiro princípio para progredir na construção de um povo: o tempo é superior ao espaço.

PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho, 222 (sugere-se a leitura dos números 223 a 225).

É neste tipo de situações que Jesus manda parar a “procissão da história” para declarar incluídos no caminho aqueles que são marginalizados por qualquer tipo de indiferença humana. Os incomodados que repreendem passam a ser “veículos” de aproximação a Jesus. E através de um breve diálogo ─ e não pelo preenchimento de um longo e enfadonho impresso ─ cura aquele homem do que o perturbava: a falta de visão física.

Vai que Jesus, o Filho de David ─ o grande artífice que, sem medo, faz Deus colher onde não semeou ─ ao recuperar-lhe a visão ainda o faz seu seguidor. Mais tarde, tornar-se-á mais claro que aquele transeunte da história famoso por operar milagres é o Filho de Deus! Por ora, basta-lhe saber que a sua fé carrega a semente da salvação!

Quem segue Jesus no caminho da evangelização precisa de se preparar para a estrada longa e que não tem muros de insonorização. Porque a oração de uma pessoa curada amplifica ainda mais a oração do Povo de Deus!

À Igreja de hoje pede-se que seja menos repreensiva e mais meio de “acessibilidade” daquele encontro que permite um ato de fé