Pr 31, 10-13. 19-20. 30-31; 1Ts 5, 1-6; Mt 25, 14-30; no XXXIII Domingo do Tempo Comum (A); Dia Mundial dos Pobres
Uma das verdades que a mensagem cristã nos permite acreditar é a de que a vida futura tem que ver com a vida presente, relacionando-se mutuamente. O Papa Bento XVI costumava dizer que é específico da mensagem cristã acreditar que nos foi prometido um futuro feliz. Portanto, a “herança” que Deus deixou a cada ser humano à face da terra não é porão de bens inanimados, mas sementes dinâmicas de vida eterna que o ser humano é chamado a cultivar e regar continuamente.
A parábola dos talentos que hoje Jesus nos conta terá o propósito de nos ajudar a relacionar esses dois momentos: a eternidade de onde Deus semeou em nós a vida, nos acompanha e nos atrai e espera, e o tempo na terra onde somos chamados a render os talentos que Deus nos deu, segundo a capacidade de cada pessoa. Obviamente, esses talentos não são só da ordem material, mas também espiritual e, até, vocacional.
Quando vou a casa dos meus pais e vou ao armário dos copos buscar um para beber água, tenho a sensação de ver ali uma “montra” do que é a variedade dos seres humanos: há copos de todos o tamanhos e profundidades, capacidades diferentes de receber a água. Se ao deitarmos a água neles até transbordar, teremos de ter o incómodo de limpar a mesa. Mas no que toca ao ser humano, não é assim: Deus fez cada pessoa ─ não interessa o tamanho ou a quantidade de água que conseguimos receber dentro ─ para que cada pessoa transborde de si para fora (neste sentido, os que se sentem “copos” mais pequenos não se entristeçam, porque transbordarão primeiro!).
Intriga-me o facto de o homem da parábola, onde facilmente vemos o Senhor Deus, ter entregue os talentos aos seus servos “conforme a capacidade de cada qual” e, depois, há um deles que não consegue frutificar o único talento que combina com a capacidade adequada para ele. O que se passará com este? De onde lhe vem o seu “medo”? O que o faz “esconder” o seu talento na terra?
O diálogo com este servo reporta-nos para o não diálogo que Deus teve com Adão após o pecado (cf. Génesis 3): «Onde estás?», diz-lhe Deus. Ao que Adão responde: «Ouvi a tua voz no jardim e, cheio de medo, escondi-me porque estou nu». «Quem te disse que estás nu? Comeste, porventura, da árvore da qual te proibi de comer». Olhando para o texto de hoje, poderíamos imaginar Deus a perguntar a Adão: «Quem te disse que eu sou mau e severo?». Na verdade, o Senhor da parábola apenas lhe responde: «sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei; devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro…». O que está a mais no coração do servo preguiçoso, que o impediu de pôr a render o talento que o Senhor lhe deu? Uma má imagem de Deus que o impede de ser uma versão melhor dele mesmo.
No capítulo 3 do Livro do Génesis sabemos que Deus deu uma segunda ordem (de proibição), a de não se comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Mas, “escavando” mais atrás, no capítulo 2 do mesmo Livro do Génesis, vamos ao encontro de uma página pela qual Deus parece ter Deixado uma PRIMEIRA ORDEM (de assertividade ou pró-ação), que parece ter sido “rasgada” não da Bíblia, mas de alguns “catecismos de bolso” da educação cristã: (Versículos 8-9:) Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, ao oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. O SENHOR Deus fez brotar da terra toda a espécie de árvores agradáveis à vista e de saborosos frutos para comer; a árvore da Vida estava no meio do jardim, assim como a árvore do conhecimento do bem e do mal. (Versículos 15-17:) O Senhor Deus levou o homem e colocou-o no jardim do Éden, para o cultivar e, também, para o guardar. E o SENHOR Deus deu esta ordem ao homem: «Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás.»
Está claro que o homem, ao comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, poderia morrer; está menos claro e, por isso, não se acentuou tanto a transmissão de pôr a render a vida o poder “comer do fruto de todas as árvores do jardim”. Esta variedade e este alimento é necessário para pormos a render ─ até onde o Senhor não lançou semente alguma ─ as capacidade que Deus nos deu! O Deus que “colhe onde não semeou” é o Deus a favor da criatividade, permitindo ao homem render na dimensão que não lhe foi pedido! Porquê ter medo?!
O padre Ermes Ronchi diz-nos que o “pai” de todos os medos, é o medo de Deus que nos infunde ansiedade e nos leva à esterilidade. Quantas vezes, na história da educação cristã, foi incutido este medo a crianças, com a imagem de um Deus castigador, para que fugissem da hipótese de praticar más ações. Ao mesmo tempo, sem saber porquê, lhes faltou criatividade para fazer boas ações originais, “conforme a capacidade de cada qual”. Hoje, como no ambiente a que nos reporta Génesis 2, o Senhor Deus deu-nos, antes da que se refere à proibição, a primeira ordem: «Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim». Ou seja, antes de proibir de comer da árvores que levaria o homem à morte, Deus ordenou que comessem da variedade das árvores que dão vida!
Portanto, o nosso servo tímido focalizou mal a sua atenção, quer no que toca à imagem de Deus e à sua ordem do amor que nos faz participar na vida, quer no que se refere à autoestima que leva o ser humano a responder convenientemente a Deus. Mas creio que ele não é o culpado, pois: quantas “vozes de serpente” proliferaram nos nossos ambientes a focalizar a atenção mera e primariamente para proibições, antes de que se focaliza a atenção na primeira ordem: a de um amor incondicional de Deus que a todos os seres humanos dá a capacidade de se relacionarem com Ele e de realizar o bem que em cada pessoa começou?
Hoje em dia, a adivinhar pela Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial do Pobre, uma das falsas imagens de Deus que nos leva a afastar o olhar dos pobres é uma imagem de Deus triunfalista, que leva a pensar numa Igreja e Sociedade triunfalistas, que se “travestem” de pompa e circunstância, por vezes, longe do caminho por onde passa ou se esconde o Reino de Deus, presente em Cristo Rei do Universo, cujo trono mais elevado aqui na terra foi a Cruz onde nos salvou, com uma coroa de espinhos na cabeça (a este respeito lembro-me da afirmação de um dos personagens do filme “Batman vs Super Man ─ o despertar da justiça” que dizia: não me digas o que de extraordinário o super man fez, mas fala-me do que ele deveria ter feito). O Santo Padre convida-nos, à medida que vamos focalizando a atenção nos pobres a focalizar a mensagem central do Evangelho. Aponta-nos a figura de Tobite que dá conselhos ao seu filho Tobias no que respeita à forma como se deve comportar com os pobres. Chega a aclamar que este filho é como a luz nos seus olhos. Tobite é um marido fiel e um pai carinhoso. Por detrás da sua coragem deverá ter estado uma mulher com os talentos referidos no Livro dos Provérbios. É nestes talentos postos a render que podemos purificar a imagem de Deus Pai que nos permita ser corajosos e ousados a reconhecer e a fazer render os talentos que Deus semeou em cada um de nós.
Diz a ti mesmo/a, diz a um pobre enquanto o olhas com amor: Não tenhas dúvidas de que és capaz de ti, porque Deus tem a certeza de que és capaz d’Ele! Capaz de ti, porque capaz de Deus!
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Aprofundar mais: O pior que nos pode acontecer é a imagem errada de Deus, o medo, a esterilidade
