navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Sb 13, 1-9; Lc 17, 26-37

Na terceira quinta-feira do mês de novembro (ontem, dia 16) celebra-se também o Dia Mundial da Filosofia, o estudo de problemas fulcrais para o homem como a realidade, a existência, o conhecimento, a razão e a linguagem. Assim, sinto oportuno fazer uma homenagem a São Boaventura, que entre outras obras escreveu o Itinerário da Mente para Deus.

Nesta obra, São Boaventura ajuda-nos a perceber como é possível a cognoscibilidade da essência de Deus, partindo do conhecimento da essência das coisas para a sua essência. Na atenção à essência das coisas poder-se-á operar o encontro com a essência de Deus. Até nos propõe um itinerário: vestígios nas criaturas corpóreas, vestígios nas sensações, imagens impressas nas potências naturais, imagens nos dons sobrenaturais, a nossa própria existência, a presença de Deus no bem e o êxtase. Este foi um modo filosófico de entender a primeira leitura, tirada do Livro da Sabedoria, onde se afirma podermos reconhecer o Artífice dos bens visíveis pela consideração das suas obras.

Num outro plano, o Evangelho leva-nos a intuir que nos acontecimentos da história do povo de Deus e as personagens que os “habitaram”, como Noé e Lot, prefigurando a vida e a missão de Jesus, como último interveniente na história dos homens. O que Jesus viveu e ensinou é a essência da vida eterna, prefigurada em sinais que Deus foi semeando na história da humanidade. Não podemos dizer que Deus age de chofre, mas aprender a ler na história o que nos acontece, discernindo o que é bom, justo e agradável a Deus.

Santa Isabel da Hungria, quando ainda muito jovem, mesmo como esposa e como mãe, soube dedicar-se a uma vida de intensa meditação das realidades celestes e de caridade para com o próximo. Depois da morte do marido, Luís IV, landgrave da Turíngia, renunciou a todos os seus bens e retirou-se para Marburgo-Alemanha. Como Terceira Franciscana, fundou um hospital onde cuidava dos doentes. Esta referência de vida ajuda-nos a compreender a ligar com os dois “pratos na balança” da vida entre o que “perder” na vida terrena para “ganhar” a vida eterna. Tendendo do que é dispensável nas necessidades egocêntricas para um amor que nos é informado pelo fundamento Deus, passando pela indispensável ajuda ao próximo.

Nos alvores da realização do Concílio Vaticano II, com o florescimento das ciências humanas, apostava-se muito na auto-realização como fator pujante do desenvolvimento humano sadio. Hoje em dia, uma mais madura antropologia da vocação cristã não coloca a auto-realização da pessoa (por uma auto-transcendência egocêntrica) no início de um caminho vocacional cristão feliz, mas o amor a Deus (auto-transcendência teocêntrica) através do serviço ao próximo (por uma auto-transcendência filantropico-social). A auto-realização será, portanto, um benefício colateral do amor a Deus e ao próximo. Já dizia Jesus: Todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros (Jo 13, 35) e Não há maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos (Jo 15, 13).