navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Rm 12, 5-16a; Lc 14, 15-24

Um dos aspetos que mais me ferem a sensibilidade, sentimento que deve também ter levado Jesus a contar a parábola de hoje, é o facto de haver na Igreja muitas pessoas que poderiam comungar e não o fazem, ao passo que já muitas pessoas “julgadas” indignas que precisariam da comunhão, senão a sacramental, pelo menos a comunhão testemunhada pelos que “comungam” Jesus sacramentado.

Um primeiro aspeto que nos chama à atenção na parábola é o facto de o festim estar todo pronto. Jesus dá entender que Deus não faz depender a qualidade da festa da resposta dos convidados, pois só depois de estar «tudo pronto» é que o dono da festa manda um servo aos convidados. À primeira vista, vemos naquele festim o banquete do Reino fundado no chamamento de Deus que transmitiu aos homens o convite para tomarem parte nessa festa.

Outro aspeto nítido, nesta versão de Lucas (em Mateus 22,1-14 fala-se de várias “equipas” de servos), é que o interlocutor daquele homem que prepara e dá a festa é um único servo, que nos faz lembrar o próprio Cristo enviado por Deus, em primeiro lugar, a todos os filhos de Israel. De facto, Jesus começou por chamá-los de uma forma decididamente séria, mas eles arranjaram forma de se desculparem.

Em terceiro lugar, a indiferença ao convite refere-se a pertences, ocupações e atividades sem aquilo que a parábola Jesus esconde e promete: um tesouro escondido no campo (Mt 13,44-46), uma montada bem medida, recalcada, sacudida e a transbordar (Lc 6,38), bodas com vinho novo (Jo 2,1-12). Adquirir estes bens implica a aceitação confiante do convite, mesmo que ainda não se vejam.

Por fim, há uma notória pressa que o senhor, indignado, faz colocar no caminho: refere-se aos miseráveis marginalizados há tanto tempo, desesperantes de um convite de género supremo, antes só reservado para alguns e agora acessível a todos. De pressa porque é urgente, quem precisa muito e há muito tempo aguarda na indigência não se pode fazer esperar mais. “Obriga toda a gente a entrar” é o grito do Deus misericordioso que não quer perder aqueles destinatários de Mt 23,13: «doutores da lei e fariseus hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens: vós não entrais nem deixais entrar os que estão a entrar».

Na JMJ Lisboa 2023, houve “pressa no ar” por causa de muitos que esperam a abertura para este Reino, por vezes fechado por uma institucionalização excessiva das estruturas eclesiásticas. Maria deu-nos o exemplo, não deixando que nada A impedisse de ir, apressadamente, cumprir o desígnio daquele Sim ao convite de Deus para abrir as portas ao Salvador da humanidade.