navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Rm 11, 29-36; Lc 14, 12-14

Temos vindo a perceber que Jesus dá muita importância às refeições, fazendo delas autênticos momentos propedêuticos para o banquete do Reino de Deus. “Propedêuticos” quer dizer que se destinam a preparar-nos com a formação básica necessária para o ingresso no Seu Reino. Nem mesmo as refeições em Betânia, na casa de Lázaro, Maria e Marta, escaparam a um ócio formativo com benefício para aquela família amiga e para nós. E é, também, por isso que em cada refeição os cristãos são convidados a rezar: não só porque sim ou para pedirmos a bênção de Deus, mas também para que cada refeição seja aprendizagem daquilo que a Eucaristia representa ─ o banquete do Reino de Deus.

Muitas dessas “refeições propedêuticas” aconteceram ao sábado, o que nos leva a imaginar que o dia mais importante da semana, para os judeus ─ hoje o domingo para os cristãos ─ é um dia importante para todos, em especial os mais pobres. O banquete de Deus é um dom que se oferece gratuitamente aos perdidos da terra. A existência verdadeira é um dom que se recebe e se oferece aos outros. Mais uma vez, a “etiqueta” de Jesus é algo que nos mete em “xeque-mate” diante dos nossos hábitos comensais, em vários sentidos. Assim, para Jesus, a etiqueta do banquete do Reino tem as seguintes caraterísticas (presentes na liturgia dos últimos dias):

1) Todos têm lugar à mesa não havendo lugar para exclusões e separatismos elitistas;

2) É um banquete gratuito, não se precisando de dinheiro nem de honras pessoais;

3) É sempre um encontro terapêutico, seja em que dia for;

4) Serve-se com ingredientes acessíveis a todos, simples, mas poderosos (grão de mostarda e fermento);

5) Exige o passaporte da vontade e o traje da humildade;

6) Todos são servidores e servidos à vez ou ao mesmo tempo;

7) Tem como referência a última ceia e o calvário.

A forma como vivemos as nossas refeições diz da nossa distância entre elas e a proposta do Reino de Deus. É um indicador, embora não o único.

O venerável bispo italiano D. Tonino Bello profetizou:

Aqui precisamos chegar ao concreto. Se a Igreja, o bispo, os presbíteros, os institutos religiosos são ricos; se amam o luxo, o dinheiro, as contas bancárias, o conforto, o desperdício, o consumo; se estão apegados a rendimentos, tarifas, lugares […], se as instituições mais ricas não atendem às mais pobres: se tudo isso não acontecer, como podemos dizer que nos fizemos últimos?

Giannuzzi, Tommaso. La spiritualità del presbitero: commento alle omelie crismali di Tonino Bello. Bologna: EDB, 2023, 88.

A este respeito, a vida e a vocação do Santo Condestável, cuja memória hoje celebramos, é um exemplo de sucesso do “tempo propedêutico” da participação do banquete do Reino, deixando-se plasmar pelas virtudes aprendidas de Jesus e da piedade a Maria que lhe serviu de apoio.

Enquanto não nos for fácil fazer gestos proféticos como os que Jesus realizou, ao menos, façamos uma ou outra refeição simples, traduzindo o que não comemos em donativo a quem mais precisa.