navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Rm 9, 1-5; Lc 14, 1-6

O Apóstolo Paulo sente uma grande angústia (há quem diga mesmo perturbação psíquica) ao dar-se conta de que aqueles israelitas que deveriam reconhecer em primeiro lugar a importância do Evangelho, pelo facto de Jesus Cristo proceder deles segundo a carne, são os que mais O desprezam. O papel providencial do povo de Israel na história da salvação é um tema difícil para ele, uma vez que Paulo também foi um judeu super-ortodoxo. Ao ver a situação infeliz em que Israel se encontra, chega a afirmar “quisera eu próprio ser anátema, separado de Cristo, para bem dos meus irmãos, que são do mesmo sangue que eu”. Anázema (grego) ou herem (hebraico), significa uma coisa oferecida a Deus, quer para o seu serviço, quer para a sua destruição. Esta palavra chegou, posteriormente a confundir-se com maldição. Parece que Paulo deseja aplicar a si mesmo a dinâmica da kenosis que Cristo viveu, fazendo-se homem para nossa salvação. Paulo também está disposto a incarnar numa espécie de maldição em nome de Cristo para libertar os seus irmãos dessa maldição. Estamos aqui a falar de uma função vicária como a que o Cardeal Pierbattista Pizzaballa fez ao oferecer-se para ser trocado por crianças reféns em Gaza: “Estou pronto para uma troca, qualquer coisa, se isso puder levar à liberdade e trazer as crianças para casa. Não há problema”. Paulo aceita uma atitude ecuménica e dialogante com o judaísmo, mesmo sem deitar a perder o Evangelho que transmite. Pois, se por um lado reconhece que os judeus pertencem ao conjunto das promessas divinas, por outro, afirma que que eles arriscar estar fora da história da salvação.

Lucas, tratando da condenação de Israel, refere que virão do Oriente e do Ocidente para ter lugar na alegria do convite que Deus preparou para todo o homem. Esse banquete aparece representado na refeição que Jesus toma à mesa do fariseu. E a sua forma é a de um chamamento gratuito e da sua influência na vida dos homens que não se deixa manipular por populismos ou setorialismos religiosos. O sinal que Jesus realiza ao sábado é sinal do grande banquete escatológico e sobre os seus destinatários: os mais fragilizados. Jesus cura aquele homem sem hesitar, quer dizer, sem calculismos religiosos, porque sabe bem quem são os destinatários por quem Deus nutre maior benevolência. Jesus não perde tempo em respeitos humanos que O impeçam de fazer a vontade do Pai. A este respeito, a síntese da primeira sessão da 16ª Assembleia Geral do Sínodo apresenta “os pobres como protagonistas do caminho da Igreja”, pedindo amor, respeito e reconhecimento (cf. n.º 4 alínea a).

Martinho de Lima ou de Porres é bastante exemplo do que nesta liturgia de hoje meditamos.