Is 25,6a.7-9; 1Tes 4,13-18; Jo 6,51-58 ─ Terceira Missa, da Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos; Reflexão inspirada em MORUJÃO, Manuel, s.j. Unidos aos Nosso Irmãos Defuntos – Mês de Novembro em Oração. A.O., 2018.
A seguir à solenidade de Todos os Santos, recordamos nesta celebração todos os nossos irmãos fiéis defuntos, com saudade amiga das pessoas que conhecemos e amamos. Estes dois dias litúrgicos são como que duas faces da mesma moeda, entre a “cara” e a “coroa”, não atiradas à sorte do acaso, mas de um caminho por onde vamos sendo transformados n’Aquele que recebemos na Eucaristia e que vamos procurando imitar nas boas obras.
Celebrar este dia é uma prática de fé, porque acreditamos em Jesus como fonte de ressurreição e de vida eterna para os que O seguem; é um ato de esperança, pois um dia confiamos juntar-nos aos entes queridos que nos precederam na partida para morar em Deus; é praticar a caridade, nas orações e boas obras que contribuirão para a purificação dos que ainda aguardam no purgatório a plena glória do céu.
Esta celebração é uma oportunidade para encararmos o mistério da morte que um dia nos tocará experimentar em primeira pessoa. não de uma forma tétrica, como sugerem as aventuras do Halloween. Não quero aqui fazer nenhum manifesto que deixaria para uma conversa privada ou para uma catequese de grupo, mas constato que entre a Véspera de Todos os Santos (é isto que quer mesmo dizer a expressão “All Hallow Evening” que derivou em “Halloween”) e o contacto com a morte dos nossos entes queridos, há aqui uma contradição: enquanto se aproximam os nossos mais novos de um imaginário de terror, por vezes e amo mesmo tempo, procura-se afastar os mesmos do contacto com a experiência da partida para a vida eterna. Aos pedagogos caberia a missão de, em alternativa à importação de tradições, propor formas adequadas de lidar com os acontecimentos naturais da vida humana. É verdade que alguma desconstrução pode ajudar, como acontece no Carnaval, mas pergunte-se a que título e a que preço, a adivinhar pelas repercussões. No meu modo humilde de ver, considero que a véspera destes dias poderia ser útil para se reviverem as vidas dos Santos e as memórias dos nossos antepassados, à volta de uma já apetecida lareira. As tradições importadas, se não forem revistas com cuidado, tendem a ser uma espécie de “apagadores da memória”, tal como as redes sociais estão a dificultar a relação.
Num mundo onde muitas pessoas apostam no transumanismo que professa uma fé pequena e vaga de que poderemos vir a viver sempre nesta terra e com este corpo, ainda que transformado, a fé cristã chama-nos a crescer na vida interior, na interioridade a que chamamos alma, para virmos a acolher um corpo glorioso. Isso implica aceitar que a experiência do corpo vá diminuindo, ao passo que a vida interior vai aumentando. Para isso, é preciso aproveitar o tempo e não desperdiçar as oportunidades. Ora foi isso que procuraram fazer os Santos e também os nossos irmãos defuntos, por cujas imperfeições invocamos continuamente a misericórdia de Deus.
Com serenidade, paz e confiança, preparamos a nossa partida desta terra para o mundo que há de vir. Esta vida é como que uma espécie de “prancha” que nos prepara para o mergulho na plenitude! Nosso Senhor Jesus Cristo, que aceitou viver este mesmo percurso que nós fazemos, nos acompanhará sempre. Ele próprio nos disse que a sua partida para junto do Pai era para nos preparar um lugar no céu. Foi o que Ele disse na Última Ceia: «Quando Eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e hei de levar-vos para junto de Mim, a fim de que, onde Eu estou, vós estejais também» (Jo 14,3). Esta promessa de Cristo enche-nos de esperança confiante!
As três leituras da terceira Missa do dia de hoje, que escolhi para vos propor esta reflexão, dizem-nos o caminho a seguir para não ficarmos presos a medos ou a esquemas que nos prendem a esta terra, quando, como criaturas, fomos feitos para “voar” para uma outra margem da existência:
1) A leitura do profeta Isaías fala-nos que o caminho é inclinado: é a subir deixando que Deus nos eleve e descendo para ir ao encontros dos irmãos que precisam de ajuda. No cimo do monte está o que nos informa a esperança e o que nos alimenta as forças para o caminho. No cimo do monte vimos encher a alma da alegria interior que nos permite convivermos com as tristezas exteriores.
2) O Evangelho diz-nos que o Senhor Jesus é a ressurreição que se dá a comer. Sim, somos e seremos o que comermos (como seremos o que lermos e o que fazermos). No topo da Criação, como nos informa o Papa Francisco, na sua Encíclica Laudato Si’, está a Eucaristia, para nos alimentar de vida eterna:
A graça, que tende a manifestar-se de modo sensível, atinge uma expressão maravilhosa quando o próprio Deus, feito homem, chega ao ponto de fazer-Se comer pela sua criatura. No apogeu do mistério da Encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo através dum pedaço de matéria. Não o faz de cima, mas de dentro, para podermos encontrá-Lo a Ele no nosso próprio mundo. Na Eucaristia, já está realizada a plenitude, sendo o centro vital do universo, centro transbordante de amor e de vida sem fim.
Em certo sentido, podemos dizer que a Beata Alexandrina de Balasar já viveu como ressuscitada neste mundo, presa a um corpo, mas cheia de vida nova por dentro! Pelo seu testemunho quase que nos atreveríamos a dizer que, pela Eucaristia e pelas boas obras, vamos ressuscitando.
3) Como nos sugere o Apóstolo, na segunda leitura, não podemos ficar na ignorância a respeito dos defuntos. A fé na morte e ressurreição de Jesus não é a fé num filme de ficção: é na realidade nua e crua da vida que, ao ser acolhida e vivida com empenho, o Evangelho de Jesus nos leva a vier a aventura da vida eterna que está no aqui e agora, entre o já e o ainda não da existência humana.
Como nos inspira o Papa Francisco, não ocultemos a experiência da morte. Corremos o risco de perder de vista a realidade da vida eterna. Temos aqui um grande desafio para abraçar: a morte é para ser enfrentada e preparada como uma passagem que, embora dolorosa e inevitável, é cheia de sentido: um ato de amor para com as pessoas que já partiram e para com Deus que nos atrai para irmos ao seu encontro. Aqui no templo, fazêmo-lo com a piedade religiosa; lá fora, façâmo-lo com gestos de caridade.
Há tempos vi um filme de aventuras com magia e dragões em que um mestre dizia a um discípulo que ir para a luta: «já que tens de morrer, ao menos morre por algo que valha a pena». Santo Ambrósio dizia «Morramos com Cristo, para vivermos com Ele». D. Tolentino Mendonça escreve que «não morremos por estar doentes, morremos por estar vivos. Talvez seja por aí que devamos recomeçar, religando o que hoje parece tão inconciliável. A morte é uma expressão da vida. A mais enigmática, impenetrável e intraduzível das expressões, certamente. Mas é no interior da vida que temos de compreendê-la. (…) Temos de aprender a estar com os outros quando chegar o seu momento, desenvolvendo capacidades até então negligenciadas. Temos de aprender a cuidar da dor e a minorá-la, mas não só com comprimidos: também com o coração, com a presença, com os gestos silenciosos, o respeito, com uma expectativa de coragem.».

