navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Rm 7, 18-25a; Lc 12, 54-59

O ser humano é capaz de explorações extraordinárias no que toca à avaliação do tempo e do espaço. Prova-o a aventura do cientista inglês James Glaisher, com a sua ambição de ultrapassar os limites do espaço que lhe permitiram grandes descobertas meteorológicas, como se pode ver no filme Os Aeronautas.

O desenvolvimento das diversas ciências permitem ao ser humano estar sempre a par, com uma fabulosa exatidão, de fenómenos físicos, psicológicos, sociais, políticos, económicos, etc., tirando partido dessa observação para um melhor bem estar sobre a terra. Porém, não deixa de haver fatores que lhe escapam à vista, não só das forças incontroláveis do mistério do cosmos, mas também das incompreensíveis inconsistências no comportamento do ser humano.

Contudo, o ser humano não está sozinho! O seu Criador não o predestinou a caminhar ao acaso, apesar da sua errância, mas acompanhou-o com a sua proximidade multiforme ao longo dos tempos e, no fim dos tempos, com a presença de Jesus, Deus-humanado. Apesar da sua visibilidade humana, escapou à vista de muitos dos seus conterrâneos a proximidade de Deus em Jesus, de modo que aquele mal originado pelo homem, que supostamente mereceria castigo, era acolhido por Jesus como precisando de cura e redenção (“Eu não vim chamar os justos mas os pecadores”; cf. Mc 2,17).

No que toca à presença de Deus, naqueles “tempos” ou “espaços” entendidos como recebidos de graça ou na Graça, escapa ao ser humano sempre qualquer coisa ou, até, o fundamental. Deste “escape” desvia-se, por vezes, para atitudes fundamentalistas, que acabam por formular um certo tipo de fundamentalismo, que costuma derivar da falta de um correto fundamento. Da consciência de se estar diante da presença de um sólido fundamento costuma construir-se uma continuidade, enquanto que da aparente ausência ou da dúvida sobre ele se vive na descontinuidade.

Os homens costumam verificar e tirar partido da alternância dos fenómenos atmosféricos para regulamentar sobre as suas tarefas profissionais. Os judeus teimavam em usar a linguagem apocalíptica diante dos problemas humanos causados pelo mal, ameaçando com o argumento da ira de Deus diante da incorreção humana. Os cristãos veem em Jesus ─ no que Ele diz e no que Ele faz ─ o grande sinal da proximidade de um Deus paciente e cheio de bondade (cf. Sl 144). A revolução da ternura é vista pelo Papa Francisco como o modo inesperado de se fazer justiça, algo maior do que a lógica do mundo, uma vez que Deus não se assusta com os nossos pecados. Ternura é derramar no mundo o amor recebido de Deus, um bom modo existencial concreto para traduzir em nossos tempos o afeto que o Senhor sente por nós. É por isso que a Teologia não se pode ficar pela Moral e pelo Direito, ciências em que se viu constringida a ação pastoral muitos dos padres idosos ainda vivos, com consequências nefastas na sectarização espiritual e pastoral da missão da Igreja. No seu testamento espiritual, o Papa Bento XVI deixou escrito: “Jesus Cristo é verdadeiramente o caminho, a verdade e a vida — e a Igreja, com todas as suas insuficiências, é verdadeiramente o seu corpo”. É neste Seu corpo que Jesus nos convida a caminhar, confiando em Deus e, marcados pelo sinal da Sua Cruz, viver entregues ao serviço dos irmãos na comunidade humana.

O que nos pode conduzir à vida em plenitude é a consistência na vivência dos valores que dimanam da vontade de Deus, sendo que o maior é amar a Deus nos irmãos, não na teoria, mas na prática. O Papa Francisco afirmou-nos que “o tempo é superior ao espaço” (cf. Evangelii gaudium, 222-225), precisamente porque a memória dos nossos antepassados está povoada com inúmeros exemplos de amor vivido na prática, que representam não uma proposta alternativa, mas a proposta que é capaz de edificar a vida humana não só em sentido terreno, mas também e sobretudo no sentido da eternidade.