navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Rm 5, 12. 15b. 17-19. 20b-21; Lc 12, 35-38

É curioso que Jesus refira o Senhor que os servos hão de esperar como vindo de um casamento. Isto talvez nos sugira o encontro que Jesus queira fazer na reciprocidade entre esponsalidade e serviço. Ele quer encontrar os seus discípulos na mesma forma ou estilo com que os quer servir: em união com o projeto do Reino, por uma espera que já é união, através do serviço vigilante.

Ao mostrar ao homem a sua autêntica riqueza, Jesus, por um lado, converteu-o num ser inquieto; por outro, indica-lhe a forma de alcançar a quietude. Como Santo Agostinho testemunhou acerca de si próprio: o seu coração já só pode descansar quando O encontrar e repousar plenamente n’Ele. Enquanto tal não acontece, é preciso ter os “rins cingidos”. Este símbolo tem uma dupla valência: a esponsalidade e o serviço, unidos na mesma esperança vigilante. No hebraico, a esperança é uma “corda” (tikvâh) que nos é dada para não nos perdermos, na prática da vigilância, não vazia mas no serviço, porque o Senhor pode vir de improviso. Se assim encontrar os seus servos, no serviço vigilante, então é Ele mesmo que os mandará sentar à mesa, cingir-Se-á e os servirá.

Ao escutar, hoje, na rádio, um fórum sobre a história do Serviço Nacional de Saúde e as atuais condições deploráveis neste âmbito, necessitando do diálogo entre o Governo e os médicos, percebi que deixou de haver uma boa administração ou gestão dos bens que permita uma boa assistência médica para todos. Em vários hospitais e em muitos centros de saúde faltam coisas básicas para que se possa atender convenientemente os pacientes. É recorrente nestes debates falar-se da busca do interesse pessoal ou de algumas instituições em detrimento do interesse das populações. Nota-se, pois, uma falta de vigilância pela realização do direito que é este bem comum, ficando os pacientes somente com o dever de pagar impostos. O que resulta disto é que não só faltam bens aos pobres, como também não lhes é dada a assistência devida.

O cardeal francês Jean-Marc Aveline, arcebispo de Marselha, disse acerca do processo sinodal em relação à renovação da Igreja o que se pode dizer às instituições sociais em relação à vigilância do bem comum: na Igreja nem toda a gente embarcou no processo sinodal como na sociedade nem todos embarcam nas soluções que poderiam a uma melhor prática da justiça social. Na verdade, muitos dos temas que se estão a debater parecem ser muito internos às comunidades da Igreja, mas eles têm a ver com as preocupações de todo o mundo.

O economista Jeffrey Sachs, ao saber que na assembleia sinodal se procura fazer um exercício de escuta dos argumentos de cada participante que intervém, com um tempo de silêncio após as intervenções, exclama: “Ah, se o Conselho de Segurança fizesse só um bocadinho assim, talvez o mundo tivesse um pouco mais de paz. Eu diria o mesmo das relações entre o Governo e as instituições e profissionais, levando-se mais a sério os fóruns onde os cidadãos vão colocando as suas posições realistas sobre os assuntos e necessidades práticas mais urgentes.

Hoje peço, em especial, para que haja mais sentido de esponsalidade do projeto deste país por parte dos políticos e dos profissionais de saúde, para que estejam atentos não só ao pagamento dos contribuintes, mas também às suas necessidades graves que eles têm o dever de assistir. Rezo, também, para que nas comunidades da Igreja os fiéis sirvam por obediência Àquele único por Quem nos vem a graça que reina pela justiça, para que possamos obter a vida terna.