Rm 4, 1-8; Lc 12, 1-7
Nada melhor que uma Jornada Mundial da Juventude, onde participaram largos milhares de pessoas como aquela “multidão que afluía aos milhares” na cena do Evangelho, para se espalhar pelo mundo inteiro a mensagem de Jesus. Naquela espécie de “JMJ” a que nos reporta o Evangelho, Jesus começou por considerar o fermento de qualidade que deve constituir a existência dos Seus discípulos, considerando o modo negativo como os fariseus eram fermente, pela hipocrisia. Aos seus amigos, Jesus aconselhava a coerência evangélica de vida.
Uma grande diferença entre aquela jornada a que presenciou Jesus e a JMJ de Lisboa 2023 é a atual imersão de multi-variados meios de comunicação social, pelos quais se cumpre a profecia de Jesus. De facto, como o poder da comunicação está nas mãos de quem transporta esses meios, a multiplicação das informações (boas e más) é muito maior. Um cena filmada ou um pequeno texto escrito a partir de um smartphone rapidamente faz chegar a todo o mundo uma informação que pode ser decisiva.
A verdadeira questão é a da eficácia para a vida do Reino. O que faz com que uma mensagem seja eficaz? Uma transmissão meramente oral ainda que fidedigna? Uma transmissão multimédia ainda que bela? Ou a coerência de vida com a vivência dos valores do Evangelho? É esta coerência que serve de veículo à transmissão do Evangelho e à concomitante vivência no Reino. O resto serve de acessório. Por isso é que em acompanhamento vocacional se diz que o discipulado e a radicalidade em factos são meios primários, enquanto que as dinâmicas e o discernimento pessoal são meios acessórios.
Não é à toa que o discernimento pastoral está na ordem do dia dos trabalhos sinodais, tendo por base um sério enamoramento com o Espírito Santo e a comunhão dialogante entre os crentes. Só por aqui é que se podem criar laços de participação nas coisas essenciais que são decisivas para a missão, frente a tantos apegos materiais e ideológicos que dificultam a mesma missão da Igreja. O mero apego a aspetos legais da vida cristã, por vezes e como acontecia com os fariseus, pode servir de pretexto para a obtenção de privilégios, não precisando do Deus que está em Jesus Cristo para se considerarem puros ou santos. Uma conduta assim, chamada de “hipócrita” por Jesus, baipassa o Evangelho, servindo-se dele em vez de, a partir dele, servir o povo. A hipocrisia “diaboliza” a vida tornando díspar o que se diz ou defende teoricamente e o que se faz na prática. Por isso é que o povo diz que “de intenções está o inferno cheio”. Paulo declara felizes aqueles a quem o Senhor não atribui o pecado. É importante termos presente que é mais fácil pecar por omissão do que por ação.
Jesus garante-nos que o Pai é zeloso para com todos, de forma que o que compensa mais é seguir o rumo do Evangelho, que unifica a vida, mesmo que com sacrifício, do que “ultrapassá-lo” para se obterem privilégios que não levam ao Reino da justiça divina. Em Génesis 3, o elemento que o Criador usou para otimizar a comunhão com Ele por uma vida feliz era um “fruto”. Assim podemos considerar as obras, como um fruto e diante delas devemos perguntar-nos: para realizar estas obras prescindi de Deus? As obras realizadas sem Deus tendem a colocar-me no início, no meio e no fim das mesmas, passando a idolatrar-me. É aqui que está o problema das “obras sem fé” de que Paulo tanto adverte.
