navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Rm 1, 16-25; Lc 11, 37-41 ─ Na memória de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir | Meditação inspirada em VV.AA. Comentáros à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

A situação que hoje nos é contada por São Lucas, à primeira vista, fere-nos a sensibilidade, na medida em que os respeitos humanos nos impedem de dar lições a um anfitrião que nos convide a confraternizar com ele dentro da sua própria casa. No entanto, olhando este episódio com uma vista mais apurada, é o fariseu que provoca Jesus logo à entrada, questionando a sua forma de proceder desrespeitosa dos ritos judaicos. Quem sai mais lesado é Jesus, uma vez que o seu anfitrião Lhe impõe, à partida, condições para poder confraternizar com ele.

No plano da religião, os ritos são essenciais para se poder concretizar o encontro com Deus, sempre carente de mediações. O rito permite meter em jogo a nossa vida diante do mistério de Deus, de modo que, através dele, possamos passar do egocentrismo à contemplação desse mistério. No entanto, pode acontecer que o ritualismo ─ fundamentalismo ritual egocêntrico ─ encubra a sua presença em vez de a revelar. Deus fica velado e o ser humano pode sair manipulado. E o encontro sai lesado. Assim, absolutiza-se o objeto em vez de se valorizarem os sujeitos. Troca-se o mediador pelo mediado. Como acontece na situação anedótica que se conta sobre alguém que entrou numa igreja para rezar e vai direto ao altar do Santíssimo Sacramento pedir a Jesus que interceda a São José para que obtenha uma graça (neste caso absolutiza-se o poder da intercessão dos Santos em detrimento do poder infinito de Jesus).

O facto mostra-nos como Jesus combate com toda a energia a fossilização dos gestos exteriores que levam a perder o conteúdo do encontro com Deus. As consequências, neste caso, são desastrosas para com o conceito de pureza que agrada a Deus: a castidade que rima com a caridade. Noutra ocasião (cf. Mc 7,15), Jesus tinha dito que o que torna o homem impuro é o que sai dele e não o que entra. O que mancha é a maldade que brota do coração do homem e o torna injusto em relação aos outros. O antídoto é compaginar os rituais religiosos/litúrgicos com a doação de si a partir do interior, de onde sai o entusiasmo (= “passar Deus de dentro para fora”). Não são os copos e os pratos, nem os rituais que se fazem com eles, a que devem estar apegados os nossos corações, mas ao Dom de Deus que é a vida que é preciso partilhar. É este Dom que está dentro que Jesus nos convida a “dar de esmola”.

Um belo testemunho desta Palavra do Evangelho, na prática, foi o Papa Inácio de Antioquia, deixando-se ser “trigo de Deus moído pelos dentes das feras”, pelas quais está convencido de poder “chegar a ser posse de Deus”. Outro exemplo, mais atual, de quem tem a coragem de se colocar dentro do “covil” dos algozes é o Patriarca dos Latinos de Jerusalém, Cardeal Pierbattista Pizzaballa, que nos desafiou para fazermos hoje oração e jejum pela paz na Terra Santa, ao declarar sua “absoluta disponibilidade” de se oferecer em troca das crianças mantidas como reféns pelo Hamas, expressando sua preocupação com a ampliação regional do conflito e com a grave crise humanitária que seria gerada por um ataque terrestre na Faixa. Alguém dizia de Santo Inácio de Antioquia o que se pode dizer deste Cardeal Patriarca: ao caminharem para o martírio estão a fazer teologia!

Respondendo ao convite de oração pela paz, suplico em particular pelos porventura menos lembrados: os perpetradores dos massacres e os que planeiam vingar-se, para que vejam claramente o fosso de ódio que as suas decisões fazem aumentar, numa história já tão longa de sofrimento para os habitantes inocentes daquela Terra Santa. Oremos, irmãos.