Rm 1, 1-7; Lc 11, 29-32
Nestes dias em que a guerra no Oriente nos invade os olhos através dos diversos meios de comunicação social, somos confrontados com o aparente silêncio de Deus e tentados a pedir um sinal, uma solução ou, ao menos, uma trégua. Mas é preciso cuidado com o que se pede! Há sinais e sinais. Isso no-lo mostra Paulo em 1 Cor 1, 23: «Mas nós anunciamos Cristo que morreu na cruz. Isto causa horror aos judeus e parece uma loucura para os nãos-judeus». Enquanto que os gregos pediam a sabedoria divina, os judeus pediam manifestações de Deus na terra. Segundo os judeus, o “passaporte” para que Jesus pudesses ser reconhecido teria que envolver gestos “extraordinários” em vez de um caminho “ordinário”.
Jesus confronta-se com uma instituição que não abre mão de privilégios, que não aceita a proposta de uma sociedade assente na prática da justiça e da fraternidade. Temos vindo a observar diante de quem Ele conta as últimas parábolas sobre o Reino de Deus: os príncipes e os anciãos do povo; agora as multidões pervertidas pelo seu falso testemunho. Se nem se converteram com a pregação de Salomão e Jonas, como hão de se converter diante do maior sinal que é Jesus? Jesus afirma-lhes que serão julgados pelos que se converteram diante daqueles sinais. Para nós, hoje, será assim: se não levarmos a sério o pontificado do Papa atual, como nos haveremos de levar a sério o seu Inspirador divino? É como se nos dissessem: não levas a sério o que te é dito por palavras que conheces como poderás levar a sério o mistério do Filho de Deus que Se fez homem para percorrer o nosso caminho humano? É isto que se presume da parábola do rico e do pobre Lázaro, nas palavras que Jesus coloca na boca de Abraão: «Se não fazem caso de Moisés e dos profetas, também não acreditarão num morto que volte à vida» (Lc 16,31).
Jesus, porém, não quis oferecer tais sinais, mas um estilo de vida, feito de uma entrega que passa pela morte e leva à ressurreição. Aprendemos, neste episódio, que a diferença radical entre o cristianismo e o judaísmo situa-se neste nível: enquanto os judeus exigem triunfo aqui na terra, os cristãos descobriram a presença de Deus na pessoa e obra de Jesus, que é não só adorável, mas também imitável. A partir deste momento, Deus já não é pura transcendência escatológica, mas encontramo-Lo percorrendo o caminho de Jesus para a Páscoa.
O sinal maior que é Jesus, com a sua mensagem e a ética subjacentes, é o que a Igreja Católica é chamada a proclamar, sem deixar que tradições de fundação humana travem a instauração do Reino de Deus. O tema que o Papa Francisco escolheu para o próximo Dia Mundial das Missões é «Corações ardentes, pés no caminho», apoiado no episódio dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-15). Tenhamos dia-a-dia a coragem e o cuidado de termos como “baratos” os sinais que Ele nos deixou como fruto da sua Páscoa, que se configura pela participação do seu tríplice múnus de ensinar, santificar e governar pela caridade.
