navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Jl 4, 12-21; Lc 11, 27-28

Na cena evangélica de hoje há duas maternidades saem enaltecidas: a maternidade da Palavra em nós e a maternidade de Jesus em Maria. A voz de uma mulher anónima sobressai no meio da multidão (ainda que não fosse habitual ou até proibido que uma mulher elevasse a voz em sociedade), referindo-se Àquela que concebeu e alimentou Jesus. Jesus aproveita este elogio para anunciar uma pertença familiar mais elevada.

A Igreja está a celebrar neste mês de outubro a primeira sessão da 16ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Esta assembleia é a da história a dar mais relevo à presença e papel das mulheres na Igreja: fazem parte da aula sinodal 85 mulheres, das quais 54 com direito a voto. Muitas vozes se levantam, também, para que se considere ainda mais a importância e o papel das mulheres na renovação da missão da Igreja. No instrumento de trabalho, no capítulo sobre a corresponsabilidade na missão, pergunta-se mesmo “Como pode a Igreja do nosso tempo cumprir melhor a sua missão através de um maior reconhecimento e promoção da dignidade batismal das mulheres?” Na verdade, o génio feminino tem a faculdade de colocar questões promotoras de fecundidade, como a da Palavra que Jesus anunciou ao aproveitar a “deixa” daquela mulher.

Voltando ao episódio que estamos a meditar, percebemos facilmente que a resposta de Jesus a enaltecer a Palavra de Deus não anula de forma alguma a corresponsabilidade de Maria no projeto de Deus. Costuma-se dizer que no mais cabe o menos e o Evangelho informa-nos que a fidelidade nas pequenas coisas prepara-nos para a fidelidade nas grandes. De facto, foi da escuta atenta a Deus que de Maria brotou o sim que a levou a ser Mãe de Jesus. E ao dar à luz o Filho de Deus, Maria é feliz pelo “mais” (a escuta e a prática da Palavra) sem anular o “menos” (o simples facto de dar à luz e de amamentar).

Na profecia de Joel, ecoam harmoniosamente quer a fecundidade das coisas criadas que embelezam o mundo, quer a fecundidade da justiça de Deus que habitará em Sião. É esta harmonia que falta no Médio Oriente ou onde quer que haja guerras, onde os que matam e destroem não respeitam nem a dignidade das mulheres e os frutos das suas entranhas, nem a beleza das coisas criadas.

A voz anónima do Evangelho representa todas as mulheres que sofrem por se acreditar na glória de um só povo. Jesus quer levar ainda essa voz mais longe: proclamar e estabelecer uma sociedade inclusiva aberta a todos os povos. O critério da pertença ao Reino não é a nacionalidade, mas a escuta e a prática da Palavra de Deus, como se percebeu na JMJ Lisboa 2023 e se contempla todos os dias nos lugares ou casas onde se vive a hospitalidade. Pertencer à família de Jesus implica a realização da justiça, da fraternidade e da paz já neste mundo.