navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Jn 4, 1-11; Lc 11, 1-4 ─ Na memória de S. João XXIII

Os textos que precederam o que proclamamos hoje ─ a busca da vida eterna pelo doutor da Lei e dupla exigência do amor a Deus e ao próximo, o bom samaritano e o valor imprescindível da compaixão, o estar aos pés de Jesus de Maria em Betânia ─ só poderiam desembocar no pedido a Jesus para entrarmos na sua escola, iniciando pelo sumário da oração contida no “Pai nosso”.

A oração do Pai nosso, não é só para entreter os discípulos de forma a eles não se sentirem inferiorizados em relação aos discípulos de João Batista (que tinham acesso a longos formulários para todas as horas e circunstâncias), mas era a própria linguagem de Jesus na mediação entre o Pai e a humanidade (refletida com mais verosimilhança pela versão de Lucas). Esta própria oração reflete os dois movimentos essenciais que são a santificação do nome de Deus e a reconciliação com (a dignidade d)o próximo, as duas faces do mesmo amor que está no seu Filho Unigénito.

Na oração do Pai nosso ─ que é, por natureza, comunitária ─ não só treinamos a postura ideal diante do mistério de Deus que é Pai de todos, mas também aprimoramos a atitude ética para sabermos estar no confronto com os outros como nossos irmãos. Rezá-la é meio caminho andado ou pormo-nos diante da possibilidade de caminharmos da mentira para a verdade, da consciência da nossa incompletude para a plenitude da graça de Deus que, como sabemos da soteriologia é suficiente. O cúmulo desta oração é a obtenção do Espírito Santo, ainda que através dela possamos pedir ao Pai o que quisermos, não a nosso bel prazer ou motivados por caprichos, mas em gestos muito concretos, ao encontro da sua eficácia na prática da vontade divina.

No seu convite à penitência para o bom êxito do Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII, citando o seu predecessor Pio XI, diz:

A oração e a penitência são os dois poderosos meios postos por Deus à nossa disposição em nossa época para reconduzir a ele a mísera humanidade errante sem guia aqui e acolá; são elas que tiram e reparam a causa primeira e principal de toda perturbação, isto é, a rebelião do homem a Deus.

PAPA JOÃO XXIII, Paenitentiam Agere, 15

A penitência de Jonas e a oração dos discípulos orientam-nos no essencial para podermos olhar pelos olhos de Deus para os outros seus filhos, todas as realidades do mundo e as, por vezes, contrastantes circunstâncias da vida.

Se tivesse sido o Angelo Ronchalli/Papa João XXIII a atravessar a cidade de Nínive iria aceitar a conversão dos seus habitantes com mais humor e não teria levado a mal que Deus brincasse com ele através do rícino, não se importando se faz sombra ou se faz sol. A verdade de fundo é que Deus é Pai de todos; é esta verdade que deve alegrar-nos, a conduzir-nos por caminhos de fraternidade e de justiça. Sabemo-lo pelas circunstâncias cómicas com que ele quebrou o gelo, favorecendo uma boa relação apesar das contradições do momento. Sabemo-lo pelo que custou a abertura de um Concílio Ecuménico através do qual a Igreja foi chamada a reaprender a relacionar-se com o mundo, para não deitar fora a missão de ali levar a mensagem perene.