navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Ne 2, 1-8; Lc 9, 57-62 ─ Na memória de São Francisco de Assis | Reflexão inspirada em VV.AA. Comentáros à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

o Evangelho mostra-nos que a vida de Jesus tipifica-se sob a forma de caminho. Consequentemente, a dos seus discípulos terá de assumir a forma de seguimento. Ontem vimos, na repreensão que Jesus deu a Tiago e João, que seguir Jesus não proporciona nenhum tipo de superioridade ou poder sobre os outros. Os casos de seguimento ou da falta dele que hoje o Evangelho nos apresenta, voltam a este tema, mostrando o risco e o valor do seguimento de Jesus, que se resume nas seguintes caraterísticas:

1) (A partir do primeiro caso) Seguir Jesus não significa fazer parte de uma casta popular que está sempre em festa. Os animais são referidos em conjuntos (as raposas têm as suas tocas, as aves os seus ninhos), mas o seguimento de Jesus não significa qualquer tipo de clube com sede algures. Jesus nem sequer promete qualquer recompensa neste mundo. Mas chama a todos. O caminho desemboca no Calvário. Portanto, se algum de nós pensa o ideal sacerdotal fixado numa única residência paroquial, está tramado. É no Filho do homem que reside toda a força e poder divinos.

2) (A partir do segundo e terceiro casos) Seguir Jesus implica romper com as antigas obrigações deste mundo: tratar do pai e estar a bem com a família. Jesus é taxativo: o seguimento pressupõe um sim absoluto, total, sem condições. A verdade do Reino e a verdade do mundo pertencem a dois campos totalmente distintos, difíceis de conciliar. A quem se atrever a acompanhá-Lo, Jesus oferece o que tem: o caminho da cruz, a própria solidão, o sofrimento. O Reino de Deus ultrapassa todos os níveis do amor humano e só quando se tiver compreendido este mistério é que saberemos apreciar o verdadeiro de ser pai, mãe e irmão. Enfim, é que poderemos compreender em profundidade a força transformadora e salvífica do amor divino. Pegar no arado pressupõe decidir-se de uma forma total, definitiva, como é o caso de quem opta por uma vocação de especial consagração (onde eu incluo também o Matrimónio, aquém da vida sacerdotal e religiosa). O reino de Deus não é um baloiço entre sim e não. Implica arriscar por aquele sim que possibilita pertencer à autêntica família de Deus que o caminho de Jesus nos ofereceu.

Jesus só pode recrutar pessoas que sejam capazes de abandonar as suas seguranças mundanas. Por exemplo, aqueles que vivem a aventura da formação presbiteral, assim como aqueles e aquelas que se preparam para o Matrimónio, e aqueles e aquelas que desejam entrar para a vida religiosa antes do momento da decisão definitiva, convivem com o desconforto de terem de lidar com o conflito entre coisas que o mundo declara como “sagradas” e as realidades que Deus revela como imprescindíveis. O Reino de Deus é como uma estrada de sentido único, jamais um baloiço entre o sim e o não.

A vocação e a vida de S. Francisco de Assis ajuda-nos a contemplar a realização deste Evangelho pelo lado positivo, através do seguimento radical, pela simplicidade, humildade e pureza com que respondeu ao chamamento e viveu a missão que lhe foi confiada de restaurar a Igreja do Senhor. O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Laudate Deum publicada hoje mesmo, convida-nos a caminhar em comunhão e com responsabilidade. Proponho a leitura dos números 66 a 71, que nos convidam a viver a vocação pessoal e a vocação familiar na perspetiva de uma ecologia integral:

66. Deus uniu-nos a todas as suas criaturas. Contudo o paradigma tecnocrático pode isolar-nos daquilo que nos rodeia e engana-nos fazendo esquecer que o mundo inteiro é uma «zona de contacto» .

67. A cosmovisão judaico-cristã defende o valor peculiar e central do ser humano no meio do maravilhoso concerto de todos os seres, mas hoje somos obrigados a reconhecer que só é possível defender um «antropocentrismo situado», ou seja, reconhecer que a vida humana não se pode compreender nem sustentar sem as outras criaturas. De facto «nós e todos os seres do universo, sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde» .

68. Isto não é um produto da nossa vontade, tem outra origem que se encontra na raiz do nosso ser, pois «Deus uniu-nos tão estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma mutilação» . Assim, acabamos com a ideia dum ser humano autónomo, omnipotente e ilimitado, e repensamos a nós próprios para nos compreendermos de maneira mais humilde e mais rica.

69. Convido cada um a acompanhar este percurso de reconciliação com o mundo que nos alberga e a enriquecê-lo com o próprio contributo, pois o nosso empenho tem a ver com a dignidade pessoal e com os grandes valores. Entretanto não posso negar que é necessário sermos sinceros e reconhecer que as soluções mais eficazes não virão só dos esforços individuais, mas sobretudo das grandes decisões da política nacional e internacional.

70. Apesar disso, tudo concorre para o conjunto e evitar o aumento de uma décima de grau na temperatura global poderia já ser suficiente para poupar sofrimentos a muitas pessoas. Mas, o que realmente importa é algo menos quantitativo: recordar-se de que não há mudanças duradouras sem mudanças culturais, sem uma maturação do modo de viver e das convicções da sociedade; não há mudanças culturais sem mudança nas pessoas.

71. Os esforços das famílias para poluir menos, reduzir os esbanjamentos, consumir de forma sensata estão a criar uma nova cultura. O simples facto de mudar os hábitos pessoais, familiares e comunitários alimenta a preocupação pelas responsabilidades não cumpridas pelos setores políticos e a indignação contra o desinteresse dos poderosos. Note-se, pois, que, mesmo se isto não produzir imediatamente um efeito muito relevante do ponto de vista quantitativo, contribui para realizar grandes processos de transformação que agem a partir do nível profundo da sociedade.