navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Ex 23, 20-23a; Mt 18, 1-5. 10

Nesta memória dos Santos Anjos da Guarda, celebram-se efemérides sociais que nos podem ajudar e a compreender o que é proclamado nesta liturgia da Palavra:

1) A primeira é o Dia da Não-violência, em que a ONU nos convida a fazer homenagem a Mahatma Gandhi, nascido neste mesmo dia em 1869. Ele foi um grande defensor do princípio da não-agressão, recorrendo-se a uma forma não-violenta para se protestar e fazer a revolução. Ele dizia que “o mais perfeito ato do homem é a Paz. E por ser tão completo, tão pleno, em si mesmo, é o mais difícil” e “as pequenas boas coisas parecem não ser nada, mas elas trazem a paz. Assim são as flores do campo que acreditamos não terem perfume, mas que, juntas, perfumam…”

2) Também se celebra o Dia Mundial do Habitat. O objetivo desta efeméride é refletir no estado dos povos, das cidades e dos espaços públicos, para garantir os direitos básicos de uma vivência adequada a todos os homens, tais como o direito à habitação condigna. São preocupações deste dia a preservação do habitat para as futuras gerações e tornar as cidades sustentáveis.

Cada uma das leituras de hoje garante-nos que estes propósitos já estavam semeados no projeto de Deus:

A) No Evangelho, Jesus convida à conversão colocando-nos diante dos olhos como modelo uma criança ou os pequeninos. A humildade de que são exemplo é a base daquela não-violência precisa para instaurar a paz. Os seus anjos são como que “lentes transparentes” entre elas e o rosto de Deus.

B) A primeira leitura fala-nos de um “lugar preparado para ti”, para onde o Senhor te dirige enviando um anjo à tua frente, protegendo-te. Este “lugar” não é só geográfico, mas também temporal. São João Paulo II, falava da “solidariedade em espécie”, convidando as gerações que vivem no presente a serem solidárias com as gerações futuras, deixando-lhes oxigénio e condições dignas para poderem viver. Nestas afirmações da Palavra de Deus está prefigurada a Laudato Si’ e nesta está patenteada a Palavra de Deus.

Como pano de fundo desta teologia dos anjos, está o debate entre a bondade divina e a resistência dos homens: por vezes, estes ignoram estas mediações de Deus para fazerem o que querem, impedindo que, nas considerações de tudo o que contribui para o progresso humano, se pense só no bem-estar presente e nem sempre no futuro. Por isso, é necessária a conversão, que passa pela escuta e a obediência à mediação que são os nossos anjos da guarda.

Intérpretes da bondade divina para cada um de nós e para todos (homens e mulheres de qualquer religião e cultura!), o Catecismo da Igreja Católica (n.º 336) associa-os à vida de cada pessoa “desde o seu começo até à morte”, assistindo e intercedendo por cada ser humano. É caso para dizer, no aborto, que alguns anjos ficam desempregados e, na eutanásia, antecipadamente reformados. E no nosso caso: dispensados? É uma pena dispensarmos tão poderosos “GPS’s”. Usemo-los e abusemos deles. Quem o faz vai dando conta de que as realidades que o Senhor nos quer fazer visitar aparecem-nos à frente, com aquele perfume que dimana da relação entre cada um de nós e os nossos anjos da guarda.