navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Esd 9, 5-9; Lc 9, 1-6 ─ Na memória de S. Vicente de Paulo

Muitas congregações foram fundadas qual “locomotivas” bem encarreiradas no binário ou carril formado pelo evangelho e o serviço aos pobres. Passando por “apeadeiros” onde o clero, os leigos, as mulheres, etc., foram convocados para a mesma missão, diversificados que eram os âmbitos em que é preciso ajudar os mais desfavorecidos da sociedade.

As instituições fundadas no carisma de S. Vicente de Paulo não fugiram à gramática interna do Evangelho como Palavra performativa do serviço aos pobres para quem lhe for obediente e responsivo. Mas, antes dos institutos (Padres Lazaristas e Congregação das Filhas da Caridade, com Santa Luísa Marillac) e o movimento associado a eles (Conferências Vicentinas), há que reparar na vida deste Santo: depois de Ordenado sacerdote, passou pela prisão, foi vendido como escravo, iniciou-se no serviço aos pobres com os Irmãos de S. João de Deus, de modo que se lhe foi afigurando aquele “binário” sobre o qual o Espírito Santo lhe inspirou a sua obra: a evangelização e a caridade.

A vida deste Santo tem uma semelhança com a de Esdras: a de ser mediador entre a escravidão e a libertação. A escravidão causada pela falta de Evangelho e a libertação impulsionada pela caridade. E tem uma diferença: enquanto que para Esdras o “abrido seguro” é o Templo erguido com a ajuda dos reis da Pérsia, para S. Vicente de Paulo esse “asilo” é o bem feito ao pobre. Cautela: é uma diferença, não um antagonismo, porque ambas as experiências se inscrevem no caminho de libertação realizada por Deus em favor do seu povo. Culto e Caridade são duas faces da mesma moeda, como aprendemos em Doutrina Social da Igreja. Ou seja: onde já uma instituição a praticar a caridade, há sempre um lugar de culto a frequentar e a cuidar.

O Evangelho ajuda-nos a fazer a síntese. Podemos entendê-la a partir do rito da ordenação, cujos gestos estão prefigurados na “hora da oblação da tarde” presidido por Esdras: (1) prostrou-se, (2) ajoelhou-se e (3) estendeu as mãos. É assim que acontece no rito da ordenação: os candidatos (1) prostram-se após a escuta e meditação da Palavra, (3) ajoelham-se para a oração de ordenação e (3) abrem as mãos para receberem o que hão de dar: os diáconos a palavra, os presbíteros a patena e o cálice com o pão e vinho. Foi assim, também, que Jesus consagrou e enviou os Apóstolos: à Palavra do Mestre, foram enviados, com pouco mais de que a Palavra, a estender as mãos vazias que, hoje, prefiguram as daqueles homens e mulheres que pedem para dar.