navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Is 56, 1. 6-7; Rm 11, 13-15. 29-32; Mt 15, 21-28 ─ XX Domingo do Tempo Comum (A)

A oração de alguém como aquela mulher cananeia que pede para a criança que ama, socorro pela sua salvação, é como a escova delicada e persistente ao mesmo tempo dos arqueólogos que tentam tirar de uma rocha escondida uma bela e original imagem de Jesus Cristo, destapando-a de “layers” ou camadas que ofuscam a sua realidade. E são 3 as imagens que poderão eventualmente fazer parte de uma visão distorcida ou ofuscada de Cristo a dificultar a sua verdadeira imagem e ação:

1ª ─ Um Senhor ausente // A quem aquela mulher aclama como “Senhor que salva” (Kyrie, eleison)
2ª ─ Um poderoso solitário que se esconde por detrás das leis // A cujos pés aquela mulher se prostra
3ª ─ Um líder de uma casta só ou de um grupo de privilegiados // A Quem aquela mulher crê como fonte de alegria para todos

A celebração e a missão desta arqueologia espiritual só termina quando estivermos diante de um Senhor que está diante da sua criatura, seja ela qual for, um Deus que incarna na situação de qualquer ser humano, de todos e de cada um em particular. Qualquer processo de fé e de salvação começa no encontro com o Senhor dos encontros que transformam a existência.

Atrever-me-ia a dizer que aquela mulher cananeia é figura de Jesus, porquanto Ele sofreu e continua a sofrer a mesma ofuscação de imagem e de presença através da insensibilidade ou indiferença, o legalismo ou burocracia, o populismo de certas pessoas ou grupos, diante dos problemas que assustam a humanidade. Fora do amor de Deus não há ninguém. É preciso perceber se nas nossas ações existe o amor desinteressado e apressado para livrar do mal, cada um diante da realidade que contacta.

Que as nossas celebrações deste fim-de-semana não sejam colocadoras de véu neste mistério (“confundir para reinar”), mas todos nós “migalhas” do amor de Deus a incarnar na vida de todos os que encontrarmos lá fora, sobretudo os mais pobres e abandonados à insensibilidade, legalismo e solidão ─ as maiores causas do atraso da verdadeira felicidade. Estas causas não vêm da verdadeira imagem de Cristo, feito só de sensibilidade, gratuidade e presença.

Continuam na minha cabeça as atitudes daquela mulher, a imitar a verdadeira imagem e pessoa de Jesus Cristo: reconhece-O como Senhor, deita-se aos seus pés, procura o espaço humilde à “mesa”, põe-se em segundo lugar (porque implora para a sua filha). A sua dor pela filha é fonte da sua fé, que é virtude teologal e realiza maravilhas.

A Beatriz, criadora do logótipo da JMJ Lisboa 2023 é parecida com aquela mãe cananeia. Teve oportunidade de almoçar com o Papa Francisco, e até lhe entregou uma carta. Abordada pelos jornalistas à saída, tentando saber se o Santo Padre tinha gostado do logótipo, ela “sublinhou que não podia desaproveitar a oportunidade de estar com Francisco para falar numa coisa que, naquele momento, apenas a ela interessaria”. (Cf. crónica de Luís Osório)