Is 7,10-14.8,10; Gal 4,4-7; Lc 1, 39-47 ─ Numa Festa de Nossa Senhora de Fátima; Reflexão baseada na Catequese do cardeal Tolentino: “Os desafios do lema das JMJ de Lisboa”
O lema das JMJ 2023 que decorrerão em Lisboa, reunindo jovens de todo o mundo, é uma passagem do Evangelho segundo Lucas hoje proclamado: «Maria levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1,39). Parece uma afirmação simples, de compreensão imediata, mas a verdade é que quanto mais aceitamos refletir e rezar sobre ela, mais facetas descobrimos e maior é a intensidade do seu impacto espiritual em nós.
A decisão de Maria se levantar e caminhar até à casa de Zacarias e Isabel tem o seu quê de enigmático. Até Isabel lhe pergunta: «De onde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor?» (v. 43). Mas também nós nos podemos perguntar porque é que Maria se levantou e partiu tão apressadamente. Que motivos a conduziram a esta ação?
Hipóteses:
1) Será que Maria se sente em perigo depois do que lhe foi anunciado pelo Anjo, indo à procura de um distanciamento e de um refúgio? Não. Ela tinha José que a podia proteger.
2) Será que ela foi informada de que Isabel não tinha mais ninguém para a ajudar? Também não. Lucas informa-nos que ela tinha vizinhos e parentes.
3) Será que Maria queria oferecer generosamente a Isabel os seus préstimos de cuidado a Isabel por causa do parto na velhice? Também não, porque Maria esteve com ela só três meses e regressou a Nazaré ainda antes do parto de João Batista.
Para adensar o mistério, acrescenta-se que Maria parte sozinha pelo caminho mais longo da Galileia para a Judeia (mais de 120km, 3 ou 4 dias de viagem a pé), e mais montanhoso e menos frequentado, quando o normal seria ir em caravana e ir pelo caminho mais seguro, que seria a linha do rio Jordão. Seja como for, para Maria tratava-se de uma decisão importante, que ela não quis adiar. Mas o que é que está verdadeiramente em jogo na sua decisão?
No princípio da sua decisão está um «Sim»: Eis a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a vossa palavra. Este sim livre e comprometido determina a partir de agora a sua existência. Tudo o que se sucede daqui para diante pede para ser lido à luz deste sim gravado como prioridade no coração de Maria. Podemos, por isso, dizer que no princípio da sua decisão está este grande sim.
No lecionário proclamámos “naqueles dias”, mas no original está “uns dias depois”. O que quer isto dizer? Quer dizer que este episódio é diretamente ligado com o da Anunciação. Para Lucas, os episódios da Visitação e da Anunciação têm uma forte correção direta que é preciso colher. Na verdade, quando Maria responde ao mensageiro divino dizendo «eis a serva do Senhor, cumpra-se em mim segundo a vossa palavra» (v.38) ela está a afirmar que a sua vida está colocada nas mãos de Deus e ao serviço de Deus. E esta sua resposta recorda-nos duas coisas: que a História da Salvação interpela de forma concreta a vida de cada membro do Povo de Deus e que a nossa adesão a essa História é dada no real da vida, implicando-nos aí, e não numa forma de ser abstrata e impessoal.
Podemos, pois, apontar duas motivações fortes para que Maria se levante e parta apressadamente:
1ª A primeira motivação não é externa, mas interna: Deus entrou na sua vida. Maria é transformada pela visita de Deus. E a consciência do impacto do amor de Deus, experimentado numa forma vital, não a deixa mais parada, nem a autoriza a ser apenas espetadora do curso dos acontecimentos. Um dos biblistas que comentam esta página (Joseph A. Fitzmyer) não tem dúvidas em afirmar que «o que se pretende indicar [com a viagem apressada de Maria] é a sua reação ao que o mensageiro celeste acaba de lhe comunicar». O acolhimento do dom de Deus que lhe foi comunicado mexe com a sua vida, altera a sua rotina, sugere-lhe que vá além. O sim de Maria é dinâmico. A sua partida é assim consequência de uma experiência de amor e de fé conscientemente iniciadas. A viagem constitui uma forma clara e comprometida de resposta. E «exprime a sua pronta obediência» a se responsabilizar com o acontecer da Palavra do Senhor.
2ª A segunda motivação é testemunhar com os próprios olhos o acontecer de Deus. Como aconteceu com os pastores (cap. 2 de Lucas) a quem os anjos aparecem e lhes anunciam o nascimento de Jesus e eles também respondem partindo apressadamente para testemunhar o nascimento de Jesus, enviado a todos. Maria interroga o Anjo e este responde-lhe com um sinal: de que Isabel sua prima concebeu um filho na sua velhice. Então, Maria quis ir apressadamente confirmar a presença deste sinal. Este sinal é como a “estrela” para os Magos. O sinal funciona como uma garantia e um penhor. Portanto, Maria quer confirmar a experiência da sua fé; tem fome e sede de ver com os seus próprios olhos e tocar a condição tangível e histórica da verdade que lhe foi anunciada e a coenvolve. Portanto, a experiência de Maria começa por uma disposição interior diante da Palavra de Deus e desenvolve-se com um envolvimento exterior.
Certamente é esta dupla dinâmica que leva muitos fiéis peregrinos a caminhar sob o manto de Nossa Senhora de Fátima, como os pastorinhos. Ouvindo a Palavra de Deus e confirmar a sua fé na presença dos sinais que os levam ao seu encontro.
Maria que que os seus filhos sejam, como Ela, testemunhas, quer dizer, mediadores do protagonismo de Jesus na história humana. As coisas que Deus quer fazer nas nossas vidas não são como “bolas de sabão” que rebentam ao mais pequenino incómodo. Deus age com consistência. A prova disso é a alegria com que aquelas duas mulheres de Deus rejubilam, porque tem origem n’Aquele salvador que brota do seio de Maria.
Neste encontro com a Palavra de Deus, sob o manto de Maria respondamos no íntimo dos nossos corações: Que pressas nos movem? Aonde nos leva essa pressa? A que casa ou casas? Para ajudar quem? Testemunhar o quê? Com Maria, aprendemos que se nos levantamos e partimos é porque primeiro Deus vem ao nosso encontro. Ele entra na nossa história. O contacto com o Seu amor incondicional, a Boa Nova desse amor, é a experiência que deve preceder tudo.
Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo…
