navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Mt 10,1-7

Num tempo em que se sofrem, constatam e vigiam situações de abuso de poder, corremos o risco de desvalorizar o bom uso do mesmo por parte daqueles que são investidos inteinsecamente da capacidade de se fazer ao caminho, de se fazer próximos e de cuidar de quem precisa.

Jesus enviou todos os seus doze discípulos mesmo sabendo que um deles O viesse a trair. Há sempre algum joio no meio de sementes ou rebentos sãos.

Uma das formas de abuso que hoje percebo na Igreja é a eventualidade factual de pensarmos e agirmos como se as funções com que Jesus investe os seus estivessem só presentes nos clérigos. Nos Seminários não se estuda Medicina. No entanto, nas casas de formação dos futuros presbíteros provoca-se a capacidade de liderar processos de acompanhamento de pessoas e comunidades no seu caminho, com o aviso de que se deve apelar à partilha das vidas e dos dons e carismas nelas semeados.

Levar a Palavra de Deus à ação não é tarefa de uns, mas desafio para todos. Precisam-se líderes que convoquem à participação, comunhão e missão. Um dos graves problemas que se deteta nas comunidades eclesiais, quiçá paroquiais, quiçá diocesanas, quiçá nacionais, é a inútil fragmentação temática da planificação pastoral, como se a proclamação diária da Palavra de Deus não fosse unânime e o Espírito Santo de onde provêm os dons não fosse o mesmo.

Segundo Anselm Grun (Poder ─ Uma força sedutora, 2020), “o Homem, enquanto criatura, possui a sua própria dignidade e poder como dom de Deus. Deus dá ao Homem o poder da liberdade”. Citando Romano Guardini, “o Homem não pode ser Homem e além disso exercer poder ou não; pertence à sua natureza o exercício do poder”. Citando Karl Rahner, refere que “num mundo sem pecado, portanto, no Paraiso, não seria preciso nenhum poder. O poder é sempre o sinal de um mundo que está marca do pelo pecado. Mas neste mundo pecador, no qual nos encontramos, o poder é um dom de Deus e a história da nossa Salvação sempre foi moldada pelo poder. Portanto, vivemos a nossa fé num mundo que está marcado pelo poder de outros homens. Na sua opinião, não podemos viver a nossa liberdade de um modo absoluto, mas sempre num mundo poderosos (…). Só quando considerarmos o poder como algo provisório é que o havemos de usar retamente. Ele fala do perigo de abusar do poder «como arma da sua própria autoafirmação». O poder está sempre ameaçado pelo pecado, pelo que não pode ser um fim em si mesmo, não se pode tornar a «absolutização do finito e do livre-arbítrio». O poder «encegueira, porque, embriagado por ele, já não se vê a realidade como realmente é». Por isso, é que o poder deve ser redimido pela fé e pelo amor. Rahner fala de um «amante sábio»: ele não foge do «poder quando o tem na mão, pode até alcançá-lo quando vê que dele abusam e quando sente o verdadeiro poder criativo dentro de si». O amante sábio conhece também a dignidade do Homem como ser livre a quem ele, em última análise, serve com o seu poder, e conhece também a impotência do poder. O poder nunca é capaz de moldar tudo e está sempre marcado pela impotência da cruz. Um poder assim, que conhece a finitude do homem mortal, não é «hesitante, nem fica a meias nem é covarde. Pelo contrário: é mesmo livre perante a morte e pode, por isso, ousar tudo o que pode responder perante Deus.