2Rs 4, 8-11. 14-16a; Rm 6, 3-4. 8-11; Mt 10, 37-42 ─ No XIII Domingo do Tempo Comum (A)

No Evangelho de hoje, aparecem os pronomes pessoais oblíquos “Mim” (tónico) ou “Me” (átono) nove vezes referidos ao “Eu” de Jesus. À primeira vista, parece um discurso egoísta por parte do Mestre. Mas não é verdade, pois Ele não usa o pronome “Eu”, mas unicamente aqueles pronomes (Mim/Me) que ─ segundo a gramática portuguesa ─ não conjugam verbos, mas ensinam-nos a nós a conjugá-los. O Mestre não está a ser, de maneira nenhuma egoísta, mas pedagogo: quer ajudar-nos a conjugar os verbos ‘amar’, ‘tomar’ e ‘receber’ a partir da sua perspetiva que é: amar mais a partir d’Ele, tomar a cruz, quer dizer agarrar a vida como ela é, e recebermo-nos uns aos outros. Trata-se da edificação das nossas pessoas. Quer fazer-nos semelhantes a Ele. Quer configurar-nos a Ele! Já pensámos sermos vistos pelos outros como transparência de Jesus? Para isso, precisamos de amar como Ele gosta, sentirmos como Ele sente, fazer como Ele faz.
Jesus não quer meio-amor, meia-entrega e meio-acolhimento. Quer-nos por inteiro, uma vez que a sua vi(n)da é uma dádiva de Deus por inteiro. Para isso, ensina-nos a colocar os “pés” da alma onde devemos: no amor a Ele, numa entrega que implique a cruz pessoal, recebendo os outros como eles são. Para isso, temos de desaprender de jogar sempre pelo seguro, de tendermos a desvalorizar as nossas fragilidades e de olhar para os outros com preconceitos.
Em nenhum momento Jesus curou alguém para o deixar inerte, mas para chamar ao caminho ou ao serviço. Porque é o amor d’Ele que nos salva, é a entrega que matricula na Sua escola e os outros fazem parte da minha aventura, mesmo quando nem tudo é agradável nas relações.
Um professor de Psicologia ensinava-me que a área que dá mais que fazer ao ser humano é, precisamente, a da psicologia das relações sociais. Pouco ou nada é mais empenhativo que o relacionamento com os outros, dentro do quadro ético proposto por Jesus. Por isso, somos chamados a aprendermos a conhecê-l’O e a relacionarmo-nos com Ele através do amor. Por isso, somos chamados a conhecermo-nos e a relacionarmo-nos connosco próprios através da entrega do que somos e temos. Por isso, somos chamados a conhecermos e a relacionarmo-nos com os outros a partir do que eles são e como se apresentam.
Ermes Ronchi sugere não cairmos no erro de identificar ou confundir a cruz que Jesus nos convida a transportarmos com o sofrimento. Jesus não sonha um cortejo de crucifixos atrás d’Ele! O termo cruz não indica o patíbulo dos escravos, mas reassume a vida de Jesus: é andar com Ele de casa em casa, de rosto em rosto, de acolhimento em acolhimento, tocando as chagas e partindo o pão. Jesus procura gente que saiba querer bem sem calculismos, até ao fundo, pagando o preço. Tudo se paga sobre a terra, só o amor é que se paga com amor. Agora a sua cruz veste-se de vida. Segundo a sua lógica divina, quem perdeu encontrará. Na verdade, nós só possuímos o que tivermos dado, como aquela mulher de Siquém, que oferece a Eliseu pequenas porções de vida: uma cama, uma mesa, uma cadeira, uma lâmpada, para receber, em troca, sem o saber, uma vida inteira, um filho. É a capacidade de amar mais que lhe é posta nos braços, por ter sido fiel a pequenas coisas, como garante Jesus. Por isso, Jesus convida-nos a seguir uma causa que valha mais que nós mesmos, começando por dar um copo de água. Por que é que seguir Jesus nos mete tanto medo, se começa por tarefas tão simples? Uma carícia desinteressada não perderá a sua recompensa!! Dar toda a vida ou uma pequena coisa são os dois extremos do mesmo movimento ditado pelo amor: dar qualquer coisa, um pouco, tudo. Não há amor maior do que dar a própria vida. Ainda que pouca ou já toda.
Em português só temos o termo querer para afirmar a nossa capacidade volitiva. Os ingleses têm três palavras para indicar uma progressão ou processo de um querer gradual que pode ajudar a fazer caminho: will (querer neste ou naquele aspeto, querer só hoje ou amanhã); willing (ir querendo numa maior soma de vezes que sugere habituação); willingness (querer sempre, em qualquer circunstância a realização de um bem). E se este querer que se vai habituando a fazer o bem se verte para os outros, a vida eterna também se verte sobre e dentro de nós.
Oxalá as famílias de acolhimento dos Dias Nas Dioceses e na JMJ Lisboa 2023, se habituem a acolher sempre: amanhã os de fora, depois de amanhã os de dentro, para que a instituição Família seja devolvida ao que o mundo quer que perca ─ sinal de comunhão com o projeto de Jesus, que é fazer-nos a todos família de Deus. O P. Estêvão sugere a esperança como “gatilho” da conversão, não o medo, como muitas vezes se utilizou nas famílias para educar o “querer”. Daí o fechamento sobre si próprias numa zona de segurança falsa, porque geradoras de individualismo e solidão. Ao invés, a esperança é uma “corda” lançada por Jesus, através de alguém diferente que bate à porta a pedir acolhimento e guarida. Tomar a cruz também pode ser abrir a porta de casa e aprender a ser capaz de conhecer o outro, dando-lhe o que precisa para viver bem. Só veremos o que recebemos em troca depois da oferta gratuita!
