At 12, 1-11; 2Tm 4, 6-8. 17-18; Mt 16, 13-19 ─ Na Solenidade de São Pedro e São Paulo; Meditação inspirada em Bento XVI (cf. BENTO XVI. Testamento Permanecei firmes na fé. Editado por Nuno André. Prior Velho: Paulinas, 2023, pp. 178-192)
Jesus Cristo é realmente o Caminho, a Verdade e a Vida ─ e a Igreja, com todas as suas insuficiências, é realmente o seu Corpo.
BENTO XVI, Testamento espiritual (29 agosto 2006)

«Permanecei firmes na fé! Não vos deixeis confundir!» ─ São palavras do Sumo Pontífice Bento XVI para nos deixar agarrados àquela mesma rocha firme em que Pedro colocou o seu alicerce: Jesus Cristo, o Messias, Filho de Deus vivo.
E conforme Jesus garantiu a Pedro que «não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos céus», também o Papa emérito recentemente falecido deixou escrito no seu Testamento espiritual que, com frequência, apesar de a ciência apresentar resultados irrefutáveis em contraste com a fé católica, as transformações que pôde constatar puderam fazer desaparecer aparentes certezas contra a fé, demonstrando-se ser não-ciência, mas meras interpretações filosóficas… Escreveu que, também no diálogo com as ciências naturais, a fé também aprendeu a compreender melhor o limite do alcance das suas afirmações, a sua especificidade. Acompanhou as hipóteses colocadas por várias gerações de teólogos e concluiu: «Vi e vejo como do emaranhado das hipóteses tenha emergido e emerja novamente a razoabilidade da fé».
Jesus, ao fazer aquela sondagem junto dos seus discípulos, começa por perguntar o que a multidão dos homens dizem d’Ele, para, depois, perguntar o que eles mesmos dizer ser Ele. Pedro é o porta-voz que avança uma resposta que ainda não sabe compreender bem, mas é o Espírito do Pai que lha coloca na boca, para incrementar o caminho de seguimento de Jesus.
Jesus faz esta provocação aos Apóstolos e mais concretamente a Pedro, porque a Igreja que Ele está para fundar existe e é para existir nas pessoas. O Senhor quer confiar esta nova realidade aos Doze Apóstolos. Pedro é a pessoa mais conhecida e citada nos escritos do Novo Testamento: é mencionado 154 vezes com o cognome Petros (pedra, rocha), a tradução grega do aramaico utilizado diretamente por Jesus. Kefa utilizado 9 vezes por Paulo. Simon utilizado 75 vezes. Filho de João ou bar-Jona (aramaico) utilizado algumas vezes. Era de Betsaida, junto ao mar da Galileia. Era pescador, dirigindo uma pequena empresa com Tiago e João, da família de Zebedeu. Deveria gozar de um certo bem-estar económico e era animado por um sincero interesse religioso, por um desejo de Deus (desejava que Deus interviesse no mundo), desejo que o levara com o seu irmão André até à Judeia para seguir a pregação de João Batista. Pedro era um judeu crente e praticante, confiante na presença ativa de Deus na história do seu povo, e sofria por não ver a sua ação poderosa nas vicissitudes de que era testemunho.
Ora, Jesus passa e aparece na vida de Pedro para o provocar em dois sentidos: 1º ─ Convidá-lo a alicerçar a sua vida no poder de Deus que o faz professar a fé e não nas forças do mundo; 2º ─ Segui-l’O através da missão concreta de presidir à sua Igreja. Nós sabemos, pela forma como Pedro se escandaliza com o anúncio da morte de Jesus e o tenta desviar do caminho com que nos salva, que Pedro terá ainda que pedalar muito para aceitar o projeto do Mestre, mas nem por isso o Senhor o descarta da sua missão. A verdadeira tradução do “Vai-te Satanás…” será: «Não me indiques tu o caminho, Eu sigo o meu percurso e tu coloca-te atrás de mim».
Aquela profissão de fé ─ Tu és Cristo o Messias ─ ainda é insuficiente e inicial. Contudo é aberta, porque Pedro coloca-se no caminho de seguimento. Esta fé inicial tem em semente o futuro da fé da Igreja. Como Apóstolo, Pedro vai aprendendo em cada circunstância em que Jesus anuncia o Reino e realiza milagres, o sentido da missão que será chamado a realizar após a paixão, morte e ressurreição de Jesus.
No Evangelho de hoje, escutamos um “vós” («E vós quem dizeis que Eu sou?») e um “tu” (»Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja»). O “vós” sem este “tu” não vale e o “tu” sem o “vós” também não vale para a construção de Jesus. A fé das multidões dependerão da conjugação deste “tu” com aquele “vós”. As reflexões do Sínodo elucidam-nos: o fundamento é Cristo, de cuja relação depende a vida cristã; a existência dos Apóstolos (e de entre estes o primado de Pedro) garantem que as multidões não se percam numa anarquia ideológica que desvie do caminho proposto por Jesus; a existência das multidões e a missão que reclamam garante que o grupo dos Apóstolos não se feche numa seita legalista. A colegialidade hoje entendida em sentido alargado como sinodalidade permitem-nos contemplar a beleza da originalidade e de dar continuidade à experiência de Jesus Cristo sobre esta terra de anunciar e praticar os valores do seu Reino eterno.
A Igreja fundada por Jesus e confiada a Pedro é perseguida através dos tempos; a missão dos Apóstolos na primitiva Igreja é ameaçada por poderes mundanos. Mas o Anjo do Senhor continua a aparecer nas circunstâncias de cada tempo para dizer «Levanta-te depressa; Põe o cinto e calça as sandálias; Envolve-te no teu manto e segue-me». Pedro segue o Anjo sem perceber a realidade do que estava a acontecer. Estava a ser libertado. Já assim tinha acontecido com Maria e José por ocasião do anúncio, nascimento e perseguição do Menino Jesus; assim continuará a acontecer com o nascimento da Igreja e, nela, de todas as iniciativas que forem resposta à revelação do poder de Deus.
Por isso, como Paulo exorta a Timóteo: é preciso combater o bom combate da fé, sabendo que Jesus está sempre ao nosso lado e nos dá força, para que por nosso intermédio a mensagem do Evangelho seja plenamente proclamada e todos a possam ouvir. Aconteça o que acontecer, o Senhor Deus nos libertará de todo o mal e nos dará o seu reino celeste.
