Sir 26, 1-4. 16-21; Ef 5,2a 21-33; Mt 19, 3-6 ─ Matrimónio; Bodas Matrimoniais
Caríssimos N. e N., nesta celebração… e, concretamente, com a escolha deste trecho do Evangelho, permitiste-nos voltar ao princípio da vossa vida matrimonial, naquele dia em que construístes sobre a rocha firme que é Jesus a vossa vida comum e a vossa família. “Numa só carne” é isso que significa: uma vida em comum! E esta vida comum é possível porque Jesus também teve a coragem, como vós hoje, de voltar ao princípio. E que princípio é esse? O ideal vocacional iniciado na Criação: o de deixar pai e mãe para se unir ao cônjuge, o que não diminui nem filho, nem pai, nem mãe, mas os expande vivendo o fim para que foram criados.
No tempo de Jesus, muitos já se tinham esquecido deste ideal e, por isso, permitiam o divórcio ou por tudo e por nada (escola de Hillel) ou só em caso de adultério (escola de Shammai). E a Lei de Moisés era uma Lei motivada pelas circunstâncias, invocando-se a dureza do coração. No entanto, Jesus está acima da Lei, apontando as exigências do caminho que permite chegar a ser semelhante a Deus no seu Reino. O Papa Francisco deixou esta possibilidade bem espelhada na exortação apostólica Amoris laetitia (n. 11):
O casal que ama e gera a vida é a verdadeira «escultura» viva (…), capaz de manifestar Deus criador e salvador. Por isso, o amor fecundo chega a ser o símbolo das realidades íntimas de Deus (…) De facto, a capacidade que o casal humano tem de gerar é o caminho por onde se desenrola a história da salvação. Sob esta luz, a relação fecunda do casal torna-se uma imagem para descobrir e descrever o mistério de Deus, fundamental na visão cristã da Trindade que, em Deus, contempla o Pai, o Filho e o Espírito de amor. O Deus Trindade é comunhão de amor; e a família, o seu reflexo vivente. (…) A família não é alheia à própria essência divina. Este aspecto trinitário do casal encontra uma nova representação na teologia paulina, quando o Apóstolo relaciona o casal com o «mistério» da união entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5, 21-33).
Amoris laetitia, n. 11
Nesta exortação, o Papa Francisco, tem consciência que o casal humano é um sinal imperfeito e não se pode pedir aos casais o peso tremendo de reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a Igreja. Por isso, a vida conjugal deveria ser sempre um fruto do discernimento vocacional e implica um processo dinâmico que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus (cf. nn. 71 e 122).
A partir da primeira e segunda leituras, descobrimos um “curriculum vitae” a partir do qual, no caminho do Matrimónio, não obstante as limitações humanas, ninguém nunca será despedido do Amor divino, nem ver enrugada a Beleza espiritual, pelo contrário: tereis sempre emprego na vida comum! Que “skills” ou habilidades permitirão isso? Vejamos, no Ben-Sirá o curriculum vitae da esposa virtuosa:
| ✓ Forte | ✓ Alegre | ✓ Sábia |
| ✓ Diligente | ✓ Sensata | ✓ Silenciosa |
| ✓ Bem educada | ✓ Santa | ✓ Honesta |
E na carta aos Efésios o “curriculum vitae” do homem virtuoso:
| ✓ Amar como Cristo | ✓ Prestar cuidados | ✓ Deixar pai e mãe |
À primeira vista, parece que o “curriculum vitae” apresentado pela Palavra de Deus discrimina o homem em relação à mulher pela diferença de qualidades elencadas, longe está uma má interpretação de Ef 5,2a 21-33, sobre a submissão… Mas há um aspeto que, também à primeira vista, passa despercebido na diferença de curriculuns: é que o curriculum da mulher é feito de adjetivos e o curriculum do homem é feito de verbos. Não se quer dizer que a distribuição de adjetivos e verbos seja assim tão taxativa, mas somente que a maravilha do amor de Deus espelha-se na complementaridade das diferenças, não só corporais, mas também psicológicas e espirituais. Na vida em comum do casal, como em qualquer outro caminho da vocação cristã, as tarefas não são tantas quantas as maravilhas que somos convidados a contemplar! A própria Santíssima Trindade é assim, como o foi a Sagrada Família de Nazaré.
E os filhos? Não há um “curriculum vitae” para eles? De que habilidades são feitos? Bem, para a N. e o N. … proponho duas soluções:
1. A primeira é a de que, consoante se é mulher e homem, têm-se, respetivamente, aquelas mesmas qualidades e atitudes que se herdam e aprendem. É bom que seja assim, para que cada um possa, também, descobrir o seu caminho pessoal e encontrar a cara-metade com quem construir uma vida em comum com base nessa reciprocidade entre verbos e adjetivos. As qualidades que herdamos também servem para seguirmos através de outros caminhos vocacionais.
2. A segunda é que os filhos já são fruto de um projeto de vida dos seus pais, recebem um testamento vital em tempo real que é feito da conjugação das atitudes e das qualidades dos seus pais. Os filhos são os “milagres” que Deus realiza na vida comum dos pais, bem para eles e para o mundo. Como inspira a afirmação de D. Tolentino:

Para terminar esta reflexão, deixo-vos 13 tarefas inspiradas no Movimento das Equipas de Nossa Senhora, para que a vossa família continue por muitos anos redobrados a ser sinal da família de Deus:
1. Dialoguem e reflitam juntos
2. Descubram e vivam a sexualidade como presente de Deus
3. Aceitem-se como diferentes e iguais
4. Falem a linguagem da ternura
5. Deixem que o amor afete todo o quotidiano
6. Contemplem a fecundidade do amor
7. Deixem-se formar para educar
8. Vejam em Jesus o primeiro a defender a sexualidade
9. Nas crises, busquem soluções juntos
10. Deixem que o perdão restaure a ternura
11. Cultivem o amor em gestos concretos
12. Redescubram sempre o vosso amor na abertura às necessidades do outro
13. Deem testemunho da vossa vocação matrimonial e familiar
Toda a pessoa que vive a chamamento do Senhor só confirma a verdade da sua vocação quando se torna um chamante. Ama porque foi chamado e chama porque ama (cf. Amedeo Cencini)
O Pe. Caffarel, fundador das Equipas de Nossa Senhora, afirmava a sexualidade como fonte de riqueza e não de fragilidade, para se alcançar o objetivo da santidade. Não era à toa que, nas propostas que ele enviou à reflexão do Concílio Vaticano II sobre a família, propusesse a existência da Ordem matrimonial, sonhando que os esposos se aproximassem o mais possível da relação entre Cristo e a Igreja, e para serem sinal desta relação humana e divina no mundo.
