navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

2Cor 6, 1-10; Mt 5, 38-42

No XI domingo do tempo comum que vivemos ontem, vimos Jesus a dar aos seus apóstolos instruções pelas quais Ele lhes transfere poderes extraordinários em favor dos que estavam doentes e atribulados. É surpreendente a aventura missionária na qual os faz participar!

No evangelho de hoje, contemplamos que as recomendações que Jesus faz aos seus discípulos são o “crisol”, pelo qual os prepara para virem a ser discípulos-missionários, para irem com apóstolos contracorrente, ou seja, que não se coadunam com a mentalidade dos seus contemporâneos naquilo que é contrário ao projeto de Deus patente em Jesus Cristo. É o caso da “lei de Talião” ou lei da vingança que, noutro tempo, serviria para pôr fim à onda de violência, mas que, no ver de Jesus, estava a ser contraproducente no que toca ao projeto do Reino. O direito à vingança (lei antiga), cede lugar, na lógica do Mestre, à lei da misericórdia. Para não responder com a mesma moeda, o discípulo de Cristo é chamado a dispor-se a fazer gestos radicais de tolerância e compreensão.

Sem querer, os cristãos, ao defenderem o seu corpo com o bem estar mundano muitas vezes contraditório com a defesa do corpo, correm o risco de deixar passar em vão o “tempo favorável” ou de não dar conta do “dia da salvação” em que o Apóstolo exorta os seus irmãos para estarem atentos de forma a receberem a graça do Senhor. Recusando ser contracorrente, por vezes, deitamos a perder a credibilidade do evangelho que somos chamados a pôr em prática em Igreja.

Paulo descreve a existência e o modo de proceder do cristão como se de uma dinâmica “quântica” do Reino se tratasse, por cujo princípio de sobreposição, um ser pode estar num estado e ao mesmo tempo noutro, como descreve Paulo em relação aos cristãos perseguidos:

Somos considerados

como impostores, embora verdadeiros;

como desconhecidos, embora bem conhecidos;

como agonizantes, embora estejamos com vida;

como condenados, mas livres da morte;

como tristes, mas sempre alegres;

como pobres, mas enriquecendo a muitos;

como não tendo nada, mas possuindo tudo.

2Cor 6,8b-10

Seguir Jesus pelo caminho da mansidão na tribulação é entrar na dinâmica “quântica” do Reino. Ou seja: ser verdadeiro, conhecido, com vida, livres da morte, sempre alegres, enriquecendo a muitos, possuindo tudo, implica não ter medo de ser considerados como impostores, desconhecidos, condenados, tristes, pobres e como não tendo nada. Não se trata de ser virtual, mas de viver em tempo real as riquezas do Reino através de modos de estar aparentemente contraditórios. É este o espírito das bem-aventuranças!