navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

2Cor 3, 15 – 4, 1. 3-6; Mt 5, 20-26

The Trinity Square or Lamartine tree – Líbano, do escultor Rudy Rahme

Uma das tendências que alguns cristãos mais “fanáticos” possam transparecer é a de pensar que no quotidiano podem cair nos mais diversos disparates no que toca ao relacionamento com os outros, mas, depois, vivem o domingo com uma áurea de pureza como se os atos sacramentais fossem mágicos, purificando todo o mal que possam ter cometido. Podem, inclusivamente, não se dar conta de cair no perigo de uma disparidade de culto, onde quem manda nas coisas sagradas é Deus (não deixando o sr. padre nem os que colaboram com ele vigiar a forma como se vive a fé em comunidade), e nas coisas do quotidiano quem manda é o hipotético fulano de quem estamos a falar. Este fulano pode receber o nome de todos nós, menos o de Jesus que não viveu duas vidas, mas só uma: a do Filho de Deus feito homem para nos salvar, a quem diz respeito não só a nossa forma de celebrar, mas também a forma de vivermos a fé no dia-a-dia.

Pode acontecer com a vida da fé o INVERSO do que aconteceu com a escultura que se mostra neste artigo: enquanto ali se apresentou uma escultura como se fosse natural ou produzida por Deus na natureza, mesmo tendo sido contratada ao escultor Rudy Rahme, na vida cristã impomos formas de estar e demonstrar a fé que são projeções do cérebro humano (conscientes ou inconscientes). Pode acontecer, como que por pareidolia, que vejamos projetada a imagem de Deus onde ela não está, e como que por miopia, deixemos de ver onde Ele mesmo se afirmou estar presente e pouco nos importa, como na pessoa dos pobres e dos inimigos, com quem somos chamados a fazer as pazes “enquanto vamos a caminho”.

Jesus advertiu os seus discípulos para o erro dos escribas: não cumpriam o que ensinavam. Diziam que não se deveria matar (conforme indicava a Lei de Deus segundo Moisés), mas depois eram capazes de se irar e mandar apedrejar quem incorresse numa desobediência a eles próprios. Ainda não eram capazes de compreender que o culto a Deus só é fecundo se for revestido de caridade para com o próximo. É o pão que se deve multiplicar, mas as leis, pois basta a síntese com que Jesus nos pôs a caminho a indicar-nos o amor a Deus e ao próximo, que é o caminho das Bem-aventuranças.

A liturgia da Palavra de hoje faz-me olhar para uma metáfora para explicar a correlação que existe entre a vida celebrada e a liturgia vivida:

a do padrão-ouro que, desde o séx. XIX, fazia com que a quantidade de reservas de ouro do país determinava a sua oferta monetária, visando uma situação de equilíbrio na economia internacional de modo que cada país mantivesse uma base monetária consistente com a paridade cambial, mantendo assim uma balança comercial equilibrada. De forma também INVERTIDA, vejo a economia da salvação proposta por Jesus no Evangelho assim: em cada celebração litúrgica e em cada sacramento nos vai dando um plafom de graça que terá correspondência direta com o “filete de segurança em ouro” que está nos seres humanos com quem somos chamados a interagir no dia-a-dia através da caridade.

Portanto, se a liturgia celebrada é um “banco” da graça de Deus, a forma como nos relacionamos com os irmãos são a confirmação desse depósito de graça que Deus “deposita” em cada crente. Na verdade, cada ser humano transporta em si uma “marca de contraste” que é correlativa à “marca de responsabilidade” com que somos chamados a relacionarmo-nos com ele.

Acontece na vida como na arte: não precisamos de procurar sinais extraordinários (mágicos) correndo o risco de os usar mal, quando nas coisas ou acontecimentos ordinários (de todos os dias) podemos encontrar a patente de Deus a convocar-nos para o diálogo e a interação com Ele nos irmãos.

Filete de segurança vs Marca de contraste

A fim de atingir comportamentos bons e honestos, não são suficientes as normas jurídicas, mas são necessárias motivações profundas, expressão de uma sabedoria escondida, a Sabedoria de Deus, que pode ser acolhida graças ao Espírito Santo. E nós, através da fé em Cristo, podemos abrir-nos à ação do Espírito Santo, que nos torna capazes de viver o amor divino.

PAPA FRANCISCO