navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

2Cor 3, 4-11; Mt 5, 17-19

No Sínodo da Diocese de Viseu que se realizou entre 2010 e 2015, foi-me dado acompanhar uma das quatro comissões: a comissão profética. Nos trabalhos desta, a caminho entre a fundamentação bíblico-teológica e as propostas a levar à votação da assembleia sinodal, demo-nos conta de que, não raramente, caímos numa mera elaboração de uma checklist de coisas a fazer, sem ter em conta a relação entre a realidade concreta da vida das pessoas e o horizonte a que somos chamados, tão escravizados que estamos no ativismo. Rapidamente, sentimos que deveríamos inscrever no quadro de elementos a votar moções quanto ao “espírito como se devem fazer as coisas”. Portanto, não basta que haja normas, porquanto frequentemente ficam meramente escritas num opúsculo; é preciso dialogar sobre o como se leva à prática o que os Evangelhos referem ser a vontade de Deus que dá vida e liberta a humanidade daquilo que a oprime.

Também no que se refere às Escrituras Sagradas podemos utilizar aquele adágio “os pormenores são pormaiores“. “A mais pequena letra” ou “o mais pequeno sinal” que Jesus quer recuperar, afirmando que veio completar a Lei e os Profetas ─ e não revogar ─ para completar ou levar a pleno cumprimento. Prova de que Jesus veio completar é, inclusivamente, o facto de ter corrigido algumas tradições apoiadas em doutrinas humanas e não na revelação do amor de Deus, uma vez que, como garante Paulo, “a caridade é que é a plenitude da Lei” (Rm 13,10).

“A mais pequena letra” ou “o mais pequeno sinal” são expressões de Jesus que nos podem levar a compreender que, por vezes, podemos esquecer-nos que Deus agiu na nossa história humana e que a incarnação de Jesus permanece para sempre como um facto histórico. Ou seja: em factos que se pode correr o risco de fazer uma leitura meramente racional e histórico-crítica ─ que é sempre uma dimensão irrenunciável do trabalho exegético ─ não se pode pôr de lado, reciprocamente, uma leitura teológica vigiada pelo Magistério de forma a garantir, não só à compreensão humana, mas também para sua salvação, o agir de Deus em Jesus Cristo não meramente como sinais vagos de uma ausência mas ações concretas de uma presença divina.

A relação fundamental entre fé e história devia ser novamente pensada. Também nisto haverá sempre espaço para o debate. A opinião de que a fé, enquanto tal, não conhece absolutamente nada dos factos históricos e deve deixar tudo isto aos historiadores, é gnosticismo; esta opinião desencarna a fé e redu-la a pura ideia. Para a fé que se baseia na Bíblia é, ao contrário, exigência constitutiva precisamente o realismo do acontecimento. Um Deus que não pode intervir na história nem mostrar-se nela não é o Deus da Bíblia.

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, A relação entre o Magistério da Igreja e a exigese a cem anos da Constituição da Pontifícia Comissão Bíblica ─ Cardeal Joseph Ratzinger

O Apóstolo Paulo não mentiu quando nos disse que Jesus nos tornou capazes de sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, mas o Espírito dá vida. O Santo Padre diz-nos que Jesus faz-nos compreender que as normas religiosas são úteis, as normas religiosas são boas, mas são apenas o início: para as completar é preciso ir além da letra e viver o seu significado.

Pequenos gestos de caridade são mais eloquentes do que grandes discursos vazios, não bastando para isso fazer coisas: é preciso verificar se são feitas com aquele Amor que nos foi dado. Letras mortas são como ações sem significado eterno. Penso que uma das mais valias de caminharmos em sinodalidade é o de se poder verificar se ─ ao acertarmos o que fazer no caminho ─ todos estamos a olhar para o mesmo horizonte, mais do que fazer por cumprir sem acerto de destino comum.