Tb 11, 5-17; Mc 12, 35-37
Um dos desafios da ação pastoral dos que recebem o sacramento da Ordem, “in persona Christi” (o bispo e os presbíteros em comunhão com ele), é lidar com a mentalidade das pessoas, entre a Verdade que se vai descobrindo e discernindo no tempo, à luz do Espírito Santo, e os hábitos religiosos. O teólogo Thomas Hálik sugere que não se fale de crentes e não crentes, praticantes e não praticantes, mas antes “os que habitam e os que procuram” Deus. E parece-me correto atualizarmos a linguagem. Pergunto: até que ponto um dito “praticante” é capaz de escutar a fundo, a ponto de acolher a novidade que o Espírito Santo diz à Igreja? Nem sempre. Então, o que significa habitar? Responderia: estar em comunhão no serviço aos pobres e aos que procuram Deus.
O padre Amedeo Cencini sugere que para haver Cultura (seja ela social ou eclesial/vocacional) são precisos três elementos: mensalidade, sensibilidade e pedagogia. É preciso, pois: saber com, sentir com e fazer com.
Jesus encontra-se no Templo a corrigir a mentalidade dos dirigentes que disseminam entre o povo a ideia de que Jesus é filho de David. Este nacionalismo ─ como os bairrismos das nossas “capelinhas”, não obstante as poucas distâncias geográficas ─ postulava que viria um filho do rei guerreiro, para libertar o povo do domínio estrangeiro, por meio da força. Apoiado no Salmo 110, Jesus corrige esta mentalidade ou forma de pensar, com o seguinte argumento: o Messias com o qual Jesus Se identifica não pode ser filho/sucessor de David porque este declara-se servo desse futuro Rei, porque Lhe chama seu Senhor. A dignidade deste Messias é muito superior à de David e o seu Reino é muito mais amplo. Se a ideia dos doutores da Lei fosse avante, o seu nacionalismo não teria deixado a Boa Nova chegar até nós, ao mundo inteiro. Agora: o que dizer os bairrismos comunitários e, até, doutrinais, que fecham o controle da vida da fé ao poder de uns poucos?
Santo Efrém, cuja memória se celebra neste dia, chegou a ser chamado a “cítara do Espírito Santo”, por compor hinos belíssimos. Lá para os lados da Turquia, nos inícios do século IV, teve a coragem de deixar escritos que fundamentaram a Teologia para corrigir os erros do seu tempo. No essencial, também hoje, precisamos de contar cantando ─ esta é a melhor forma de transmitir o essencial da fé, que é a Tradição como “alicerce”, deixando de guerrear por causa das “paredes” que, no caminho da história Deus quer movediças.
